Confidências à meia-noite (1959)

Eles se odeiam do outro lado da linha, mas fingem que está tudo bem face a face

Eles se odeiam do outro lado da linha, mas fingem que está tudo bem face a face

No final dos anos 50 e início dos anos 60 a lindinha Doris Day e o grandalhão Rock Hudson formavam o casal perfeito do cinema norte-americano. Quer dizer, quase perfeito, não fosse o fato de o galã charmoso, na vida real, ser homossexual. Mas o público não precisava saber disso e, juntos, eles trabalharam em grandes sucessos de bilheterias como Volta meu amor (1961), Não me mande flores (1964) e Confidências à meia-noite (1959), que tive oportunidade de ver outro dia no Telecine Cult.

Típica comédia de erros dos anos dourados do cinema em Hollywood, o filme traz Doris e Hudson em lados opostos na trincheira do amor em Nova York. Ela é Jan Morrow, uma decoradora de talento que divide a linha telefônica com ele, Brad Allen, um músico respeitado que passa metade do tempo pendurado ao telefone cantando as garotas. Por causa disso, os dois estão em pé de guerra, mesmo um sem ver o rosto do outro. O único elo de identificação que ambos têm é a voz e um amigo em comum que eles nem sonham que divide. Trata-se do milionário dândista vivido pelo ótimo Tony Randall, que está apaixonado por ela e tem ele como contratado de um musical orçado em US$ 200 mil.

“Se eu contar isso ao meu analista ele nem vai acreditar”, diz o esbanjador desconsolado ao guarda de trânsito, quando ela rejeita como presente um carro esporte zero km. “Nem o meu”, debocha o guarda, fulo da vida por ele ter estacionado em lugar proibido.

Pillow talk 2Quando Brad descobre que a pequena deliciosa que acaba de conhecer numa boate é a tal antipática com quem divide a linha e que ela é o objeto de desejo de seu melhor amigo, por brincadeira, faz de tudo para conquistá-la passando por um texano milionário, carente e galante. Só que, no meio do caminho o tiro sai pela culatra e ele se apaixona por ela de verdade. Mas agora é tarde, quando ela descobre toda a farsa.

Divertido, inteligente e cheio de malícia, Confissões à meia-noite tem na sintonia em cena entre os dois astros um dos pontos altos, mas também um texto ágil, descolado e bem moderno para o final dos anos 50. Os diálogos dúbios e maliciosos escritos por Stanley Shapiro e sua turma são um sundae, assim como as situações embaraçosas em que o casal dublê de namorados se mete.

“Quem possui uma montanha não precisa de cidade grande”, diz ela encantada com o texano de mentira.

No final, a fatídica guerra dos sexos travada entre o homem machista e conquistador x a mulher independente e romântica se rende ao amor mútuo.

Gostoso de ver os cenários e figurinos coloridos da época, ilustrados com o que havia de melhor na moda e no comportamento que estava na crista da onda. A já agitada Nova York é quase uma personagem na fita com seus enormes arranha-céus, trânsito caótico e multidão feroz zanzando pelas ruas. “Até o ar de Nova York você pode tocar. Ele tem caráter”, diz o apaixonado empresário a elegante Jan, tentando demovê-la da ideia dela se mudar para o Texas com seu “amante”.

* Este texto foi escrito ao som de: The amazing Nina Simone (1959)

Nina Simone

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