Ler poesia como se fosse uma oração

O poeta em uma de suas passagens pelos EUA, ídolo da geração beat

O poeta em uma de suas passagens pelos EUA, ídolo da geração beat

É preciso ler poesia como se estivesse fazendo uma oração. Desconectar a alma do corpo e levitar com serenidade no paraíso dos versos líricos, das fantasias atormentadas dos poetas malditos, que são os melhores, os mais realistas e pragmáticos. Porque são, sobretudo, aqueles dotados com maior verdade. Eu sei, foi o Fernando Pessoa quem disse que “o poeta é um fingidor que finge completamente sua dor que deveras sente”, mas poesia tocante e interativa para mim é aquela que não precisa de fingimento, que surge da emergência agônica de se expressar, do mais profundo âmago. E percebi essa proximidade entre poesia com algo metafísico lendo agora os poemas de Dylan Thomas, que é um poeta que faz uso da religião de forma interessante.

Filho de um professor, desde cedo o poeta aprendeu com o pai versos de Shakespeare e passagens da Bíblia. Mesmo antes de aprender escrever. No livro Poemas reunidos (1934 – 1953), essas influências estão latentes. Fico fascinado com a profundidade e, na maioria das vezes, com a áurea de mistério que adorna várias de suas poesias. “Exangue, caí então sobre as planícies de Ismael/ E saciei minha fome à sombra de leitosos cogumelos/As impetuosas águas da Ásia levaram-me de roldão/E a Baleia de Jonas agarrou-me pelos cabelos”, escreve em Como um altar em meio às trevas. “A morte coberta de ataduras dialoga com a máscara dos eruditos/O ouro reveste essas feições e o espírito do linho une o meu esguio fidalgo às fúrias e ao pó”, continua enigmático. “Tudo o que utilizei da Bíblia em minha obra vem de minhas recordações da infância, e é propriedade comum de todos os que foram educados nas comunidades que falavam o inglês”, admitiu certa vez.

Dylan Thomas ilustrçãoA culpa cristã perpassa muito de seus versos, sentimento desenhado como imagens fortes e assustadoras, dignas de um capítulo do apocalipse. “A dor, com as mãos desgrenhadas, rasga o espectro do altar/E um vento de fogo assassina os círios/(…) Ouvem, por um acaso da morte, o carrilhão do campanário despedaçado/Bater a hora da morte através do bronze”, descreve em É o sino de língua poeirenta dos pecadores. A relação com a natureza, sobretudo com a amada e referenciada Swansea, também está presente na poesia de Dylan Thomas. Tal qual o heterônimo Alberto Caeiro, de Pessoa, essa identificação é quase metafísica e orgânica. A intimidade permite com que o poeta manifeste uma ligação afetiva quase doméstica, como mostra em Faço isso numa ausência hostil. “Um vento calmo sopra e despenteia o cabelo das árvores/Onde outrora o sangue macio da neve se fez gelo.”

Por conta de suas referências religiosas achei que o Dylan Thomas fosse um daqueles poetas clássicos ingleses ou norte-americanos que li. Os poucos que li. Contemporâneo de W. H. Auden e até certo ponto do infernal irlandês James Joyce, Dylan Thomas, admirador de Rimbaud, foi uma influência inusitada pela geração beat, que de santa não tinha nada. Uma dessas adoráveis contradições do mundo dos poetas.

* Este texto foi escrito ao som de: Meteorites (Echo & The Bunnymen – 2014)

Meteorites

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