Getúlio (2014)

Fisicamente Tony Ramos não se parece com personagem, mas imprime dramaticidade na atuação

Fisicamente Tony Ramos não se parece com personagem, mas atuação tem dramaticidade

Dentre as várias figuras históricas que permearam minha adolescência, Getúlio Vargas é uma das mais presentes. E à sombra de sua dupla imagem de ditador e homem do povo paira sempre a figura do jornalista Samuel Wainer, um dos meus ídolos do jornalismo. Por sinal, uma das personalidades históricas que senti falta no drama Getúlio, em cartaz na cidade desde o dia 1º de maio.

Gostei muito do filme, mas não acho que o Tony Ramos tenha ficado parecido com o eterno pai dos pobres. E nem me parece que essa foi a intenção, já que a ideia era captar a alma por trás da figura pública, do homem político. E, nesse sentido, o roteiro contundente de George Moura é certeiro como o tiro que matou o presidente mais popular que o Brasil já teve. Dirigido por João Jardim (A janela da alma e Pro dia nascer feliz), o filme se concentra nos 16 dias finais que antecederam o suicídio de Getúlio. A narrativa marcada por intensa crise palaciana, acirradas disputas políticas maniqueístas e momentos de humanismo impressiona. Sobretudo pelo possível paralelo com os dias atuais no que diz respeito à questão da corrupção.

Habilidoso, João Jardim teve o cuidado de mostrar as várias facetas de um homem que tinha uma intimidade promíscua, estreita com o poder, mas que era incapaz de gestos simples, como o de amarrar o próprio sapato. Vai mais longe ao supor que a vergonha moral e o medo da humilhação pública o levaram ao dar um tiro no peito. “Eu aqui me preparando para uma guerra e você me vem com o silêncio”, diz ele ao irmão Benjamim, alardeando traição. “Não vou sair do governo enxovalhado. Daqui só vão levar o meu corpo”, avisa numa reunião no Palácio do Cateto, sede do governo que é quase um personagem do filme.Getúlio 2

Tony Ramos pode até não estar parecido com o presidente, mas sua atuação, sobretudo nos momentos mais tensos e dramáticos da fita, impressiona. A intensidade da câmera de João Jardim colado ao rosto e mãos de um Getúlio Vargas preocupado, que vaga perdido, de um lado para o outro em seu gabinete, intensifica essa dramaticidade. Se valendo de licença poética, o roteirista George Moura e João Jardim, potencializam a angústia do presidente imaginando um pesadelo em que ele é preso pelo exército com faixa presidencial e tudo.

Se Drica Moraes e Alexandre Borges estão estupendos, respectivamente como Alzira (filha de Getúlio) e Carlos Lacerda, o mesmo não pode ser dito com relação ao ator Thiago Justino. Na pele do negro Gregório Fortunato, homem de confiança de Getúlio que se transformaria no pivô de toda a crise do governo Vargas por ser considerado o mandante do atentando contra Lacerda, o ator não convence.

“Eu não tenho o que falar, não sei o que falar”, se desculpa seu personagem, quando pressionado pelos milicos.

A atuação de Tony Tornado na minissérie Agosto, da Rede Globo, no mesmo papel é mais emocionante e viril.  Aliás, aproveitando a deixa, registro que Getúlio, de João Jardim é um bom filme, mas prefiro mil vezes essa adaptação televisiva dirigida por Paulo José. Melhor ainda o formidável romance premiado de Rubem Fonseca inspirado nesse triste episódio da história brasileira.

* Este texto foi escrito ao som de: 50 anos de boêmia (Nelson Gonçalves – 1991)

Nelson Gonçalves

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