Um drink no inferno (1996)

Quentin Tarantino e George Clooney, aqui dois irmãos assassinos lidando com vampiros

Quentin Tarantino e George Clooney, aqui dois irmãos assassinos lidando com vampiros

Porque durante muito tempo eu achei que Um drink no inferno fosse de Quentin Tarantino isso não sei dizer. E não tem nada a ver só com o fato dele estar no filme. Porque além de ser um dos atores na fita, fazendo dobradinha com o charmoso George Clooney, o cara também assina o roteiro, mas o trabalho de carpintaria é de Roberto Rodriguez, seu quase irmão siamês no desenvolvimento de projetos ousados e revolucionários. E muito da ousadia e rebeldia dos dois cineastas está no fato de ambos não terem medo de ser expor no que diz respeito à criatividade.

A primeira parte de Um drink no inferno é de um realismo contagiante. Lembra aquelas tramas eletrizantes de Samuel Fuller ou Sidney Lumet. Narra a história de dois irmãos barra pesada que, depois de assaltar um banco e fazer várias vítimas, entre policiais e civis, sequestram um trailer de um pastor que perdeu a fé e quer uns dias de reflexão com os dois filhos.

Um deles, interpretado por Quentin Tarantino, é esquentado e meio debilóide, estruprador doente que se deixa vacilar com o dedo nervoso no gatilho. O outro, vivido por George Clooney, é o cérebro da dupla e trama seus passos de maneira racional. O perigo é quando lhe tiram do sério. Eles têm que atravessar a fronteira dos Estados Unidos com o México e fazer transações com um traficante local num bar de motoqueiros bem bizarro.

Um drink no inferno 3É quando entra a segunda parte do filme com todas as suas loucuras, estranhezas, bizarrices e aquela coisa que falei nas linhas acima sobre ousadia e se expor sem medo do ridículo. Porque aqui eles subvertem valores, conceitos, regras de forma maliciosa e provocativa. Daí a coragem, por exemplo, de um astro do naipe de George Clooney, e talvez por isso que ele seja o astro que é hoje em dia. Depois de pedirem uma cerveja, sequestradores e sequestrados não demoram muito a perceber que o lugar está infestado de vampiros, medonhas criaturas da noite, e daí meu chapa, salve-se quem puder.

“Vem ser meu escravo”, diz a deliciosa mexicana Salma Hayek, arreganhando seus pontudos dentes das trevas para o personagem de George Clooney que não se deixa intimidar: “Não, obrigado! Já fui casado…”, sai logo pela tangente.

Quase que parecendo uma divertida brincadeira entre amigos, Um drink no inferno é por incrível que pareça de uma seriedade estética e narrativa formidáveis. Só quem é cinéfilo de verdade ou gosta e dar a vida pelo cinema sabe do que estou falando. Sobretudo porque o roteirista Quentin Tarantino e o diretor Roberto Rodriguez transformam suas influências, referências e sacadas citações cinematográficas visuais e verbais num hilário mosaico cinético.

“Fica em segundo, só atrás de Pulp fiction, como o filme sobre o qual as pessoas vêm falar comigo na rua”, admitiu certa vez, orgulhoso, o descolado Tarantino.

Não vou esconder que, a segunda parte apesar de, deliciosamente estrambótica, não deixa de ser um tanto quanto tosca, mas desde o início essa foi a intenção e proposta da provocadora dupla. Eu não me deixei ir por essa vibe.

Já a primeira parte do filme é de uma brutalidade realista incômoda. Gosto da dúvida cristã que paira sobre o pastor vivido pelo fantástico Harvey Keitel. “Eu ainda admiro Jesus, mas não tenho mais fé”, lamenta o coitado, diante dos filhos, um deles a gatinha Juliette Lewis.

O final é um sundae, com a alusão provocativa de que tudo não passou de signos nebulosos dos astecas. Esse Tarantino… Cheers!

* Este texto foi escrito ao som de: The greatest white liar (Nic Armstrong & Thielves – 2005)

Nic Armstrong

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