Duas grandes perdas em pouco tempo

João Carlos Sampaio era de uma generosidade ímpar, simpatia idem... Saudades!

João Carlos Sampaio era de uma generosidade ímpar, simpatia idem… Saudades!

A notícia pegou todo mundo de surpresa. Eu mesmo, só fui entender o que realmente aconteceu, no início da noite. E quando a ficha caiu, foi como se o chão tivesse ido embora. Bem que eu estava achando estranho, muito estranho, aquela enxurrada de fotos do colega João Carlos Sampaio no facebook, assim tão de repente, de repente, tão “de graça”. Mas a correria do dia a dia, a pressa do cotidiano às vezes faz com que ignoramos o óbvio, o que está bem ali, na nossa frente. E o óbvio, meu chapa, pode ser de uma crueldade obtusa. A morte do crítico de cinema João Carlos Sampaio, na madrugada de ontem, em Recife, onde estava para mais uma cobertura do festival de cinema local, como todas do gênero, foi de um desconforto ululante, mas nesse caso, há um contundente quê de injustiça, de revolta e incompreensão. Por que logo ele, tão cheio assim de vida, alegria, simpatia e irreverência?  E tão novo o cara, aos 44 anos… E juro que ele fosse bem mais novo…

Cansei de esbarrar com o João Sampaio nas coberturas do Festival de Brasília e ele, com sua figura bonachona, tão carismática e solícita, tão acolhedora, sempre vinha ao nosso encontro de braços abertos nos abraçar dizendo seu indiscutível bordão de apresentação e felicitação: “Fala meu querido!”.

Este ano, no Festival de Brasília, que amo tanto, não irei ouvir essa frase tão aconchegante e a mostra, sem sua presença irreverente, inteligente, espirituosa, carinhosa – me perdoe o clichê -, ficará mais triste. O baiano João Carlos Sampaio, com seu largo, espaçoso e contagiante sorriso vai fazer muita falta. O Luiz Zanin, outra persona incrível e sempre presente na mostra é que tem razão. “Amigos não deveria ter o direito de morrer”.

SuicídoHá duas semanas, um amigo meu de faculdade, o Léo, que não via há tempos, bastante tempo, para falar a verdade, com seus lindos olhos verdes, sorriso contagiante, tirou a vida lá em Belo Horizonte, sua terra natal. Há anos que ele era atormentado, fustigado por uma depressão massacrante, mas seus lindos olhos verdes e sorriso eletrizante escondiam de maneira fake essa doença maldita e silenciosa dos amigos. E assim, mas uma vez, fui pego de surpresa com a morte prematura de mais um amigo.

Fiquei tão abalado que corri para o vilão e rabisquei rapidamente uns versos bem ruins, pobres, sim, mas sinceros em sua homenagem. “E quando a barra pesar, o que fazer, pra onde ir?/ E quando a barra pesar…”, escrevi num dos trechos da canção.

Caramba, carambola, Cacilda! E porque o suicídio? Sabe, tenho inveja dos suicidas, muita inveja de quem tira a vida com as próprias mãos. Era algo que queria ter coragem de fazer, mas sou de uma covardia vergonhosa.  “Deus ama os suicidas”, costumava dizer o dramaturgo, cronista e jornalista Nelson Rodrigues, com seu proverbial senso de tragédia. E se ele existe mesmo, deve amar.

Um primo meu, não tem nem cinco anos, bebeu veneno e morreu. Era bem jovem, muito jovem. Se vivo fosse, teria a minha idade, um pouco mais. Bem, os médicos disseram que a bebida nociva desceu rasgando, estourando tripas e veias. Até hoje ninguém sabe direito porque ele fez isso. Dizem por que o cara era desprezado pelas irmãs esnobes que se achavam melhor do que ele que não tinha estudo. Veja você que coisa mais opressiva do ponto de vista desse sistema burro, insano e medíocre ao qual somos submetidos todos os dias.

Não me gabo disso, mas tenho estudo melhor do que as irmãs deles e, no entanto, achava ele uma figura fantástica do ponto de vista humanista. Até mesmo superior do que todos nós. Acho triste morrer jovem, ainda mais sob essas circunstâncias.

* Este texto foi escrito ao som de: The bends (Radiohead – 1995)

Radiohead

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