Passagem para Índia (1984)

David Lean exibindo sua exuberante eloquência visual

O mestre esteta David Lean exibindo sua exuberante eloquência visual

O inglês David Lean, com seu cinema grandiloquente, é um dos grandes estetas da imagem da sétima arte. Eu acho. Se você assistiu alguma vez na vida Lawrence da Arábia, sabe do que estou falando meu caro. Se não, I’m sorry! Dirigido em 1984, Passagem para Índia é um filme menor em sua carreira, mas igualmente deslumbrante no que diz respeito ao visual e às inquietações culturais e sociais de um daqueles exóticos lugares do planeta. Nesse caso, o foco é a Índia de Mahatma Gandhi. Mas o olhar está situado bem antes da figura marcante do líder religioso.

Baseado em obra de E. M. Foster, a trama, ambientada nos 20, traz como pano de fundo os conflitos acirrados entre ingleses e indianos (os mesmos que, num futuro próximo, iriam projetar a figura do carequinha infernal). O primeiro, na condição de colonizador esnobe e violento. O segundo, trilhando a imagem do colonizado subjugado e submisso. Dentro deste contexto, em primeiro plano, surge a figura de duas inglesas que, por motivos pessoais e diferentes, viajam pela primeira vez rumo a este destino exótico. Lá está a trabalho, servindo o judiciário local de forma canalha, o filho de uma delas que, por acaso, também é noivo da outra.

“O oriente é o oriente. É uma questão cultural”, avisa um cicerone local as duas recém visitantes, já não suportando o lugar que elas olham com espanto, deslumbramento e encanto. “A índia é um lugar perigoso para os recém-chegados”, continua o sujeito, com visível má vontade.India

Mesmo não suportando o calor infernal do lugar, enfim, as diatribes sociais que esquenta ainda mais a região, o clima hostil reinante entre os dois povos, elas querem aproveitar ao máximo o passeio. O olhar curioso delas perscruta os costumes, a religião, com sua particularidade estranha, a comida, e claro, as atrações turísticas, com direito a um tour no lombo de um elefante e visita às místicas cavernas indianas “no cume do mundo”. Lá, ciceroneadas por um médico local de simpatia e solicitude comoventes, interpretado pelo ótimo Victor Banerjee, elas acabam se envolvendo num mal-entendido em que resulta na falsa acusação de estupro de uma delas, a mais jovem, evidentemente.

“Tenho 25 anos de experiência aqui e não vi desgraça maior quando ingleses e indianos tentam ficar íntimos”, ironiza um sádico chefe local inglês, cheio de preconceito e arrogância.

Apesar do tom, excessivamente maniqueísta adotado por David Lean, que também assina o roteiro, Passagem para a índia é um daqueles eletrizantes filmes turísticos que nos convida a largar tudo e ir para o destino que entortou a cabeça do beatle George Harrison. Preste atenção no lirismo com que o diretor filme a lua sobre o rio Ganges.

Meio que um catálogo turístico-didático sobre o país, David Lean nos apresenta aqui, com sua habitual elegância e exuberância visual, os prós e contra da Índia. Está lá, por exemplo, não só as hostilidades ignóbeis dos ingleses esnobes com relação aos indianos, mas também os absurdos domésticos, como os incompreensíveis casamentos arranjados entre eles – um assunto extremamente cultural -, o complicado entendimento da religião, assim como a hipocrisia, preconceito e intolerância que separam os dois povos.

Contudo, a beleza plástica do filme em nenhum momento ofusca as atuações marcantes de atores como o já citado indiano Victor Banerjee, a bela Judy Davis, também James Fox e os veteranos Alec Guinness e Peggy Ashcroft, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

Bem, eu disse um filme menor. Mas menor entre os grandes entenderam?

* Este texto foi escrito ao som de: Rubber soul (The Beatles – 1965)

Rubber_Soul

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