Da vergonha do racismo

Acho um retrocesso essa coisa de discriminar uma pessoa por conta da cor da pele

Acho um retrocesso essa coisa de discriminar uma pessoa por conta da cor da pele

Minha mãe tem uma amiga carola que, assim como ela, acredita que Jesus vai cair do céu, surfando numa nuvem, entre plumas de mil megatons, anunciando sua segunda vinda ao mundo. Uma bobagem de babar na gravata, mas não falo nada para não cortar o barato das velhinhas. Além do mais, elas têm, sim, o direito de pensar e achar o que quiserem. Mas outro dia, essa amiga de mamãe me deixou fulo da vida, tipo assim, sapateando como uma bailarina espanhola. E tudo porque, ela, que não sai da igreja e se diz uma cristã corretíssima, se indignou, veja você, com o Cristo negro de Ariano Suassuna, no clássico, O auto da Compadecida. E olha que o Jesus queimadinho, como diz o personagem João Grilo (Renato Aragão/Didi), era ninguém menos do que o Antônio Carlos Bernardes Gomes, o nosso Mussum.

Pois bem, essa senhora, temente aos ensinamentos do catolicismo, subiu em seu caixote de querosene e, de guarda-chuva em punho, esbravejou possessa, quase cega, a seguinte estultice. “Jesus preto uma ova, Jesus negro uma pinóia! Ele era clarinho e de olhos azuis”, disse irada. Mais do que revoltado com o Jesus Cristo de Hollywood que ela evocou – o mesmo que mora no inconsciente de zilhões de pessoas -, fiquei indignado com a hipocrisia dessa senhora que, além de uma ignorância obtusa, se mostrou de um racismo ululante.

CompadecidaDaí, fiquei pensando o seguinte. O que diabos então essa desgraçada faz na igreja todos os dias se comete um pecado banal, ultrapassado e vergonhoso como esse? Se existe um inferno, quero que ela passe sua eternidade ali. Na verdade, tive vontade de lhe dar uma banana daquelas, mas me lembrei da elegância do lateral brasileiro Daniel Alves que, no último fim de semana, foi vítima de racismo na Espanha, e tirou de letra a situação. Primeiro, que mania porca esses espanhóis tem de ficar jogando banana no campo, viu. Segundo, que deprimente, passado todos esses anos, a humanidade se mostrar tão pequena se sujeitando a julgar uma pessoa pela sua cor. Acho isso o fim da picada, uma coisa bisonha, medonha, digna de vergonha alheia, além de um baita de um retrocesso.

O mais triste é que episódios assim não param de acontecer aqui e acolá mundo afora. Recentemente, nos Estados Unidos, o proprietário de um time de basquete de Los Angeles, revelou seu lado racista ao condenar a namorada por ela ter tirado uma foto com o Magic Johnson. Coitado dele porque os dois esportes mais populares do mundo, o futebol e o basquete, tem seus maiores ídolos negros, Pelé e Michael Jordan, e ele sai com essa pérola. Digno de pena.

Mas pena mesmo, fiquei de uma tia minha que não gosta de negros, homossexuais e índio. Ou seja, tudo que é minoria ela abomina. Assim como essa amiga carola de minha mãe titia Magui não sai da igreja, vive com um terço enrolado nas mãos e uma bíblia debaixo do braço, mas outro dia, ao ver uma matéria sobre os Estados Unidos na tevê, se referiu ao presidente Barack Obama como “aquele preto”. Quando ouvi isso quase que cai do sofá. Eu sei que ela se referiu a ele desse jeito porque era mais fácil, já que a infeliz não sabe dizer o nome correto do presidente dos Estados Unidos. O que só demonstrou não só o tamanho de sua burrice, mas de sua pobreza de espírito também. Mais do que isso, que o Brasil, um país multirracial, é uma nação de preconceituosos e esnobes.

Sabe de uma coisa? Às vezes ou o tempo todo fico com vergonha de mim mesmo quando me olho no espelho. Pior, ainda continuo acreditando naquela frase que abre o filme Os doze macacos. “A raça humana deveria ser extinta da face da Terra”.

* Este texto foi escrito ao som de: What’s going on (Marvin Gaye – 1971)

Narvin

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Um comentário sobre “Da vergonha do racismo

  1. Esse seu texto me fez lembrar de algumas figurinhas da minha familia, muito parecidas com essas, inclusive no ato de frequentar igrejas e acreditar que JC tinha olhos azuis. Gente, que absurdo! Um dia me indignei e disse algo como “somos todos descendentes dos africanos, de acordo com os cientistas”, isso obviamente iniciou uma discussão que resultou em um “hiato” que só finalizou no natal, quando eu fui ”perdoada”. Enfim, acho que a humanidade precisa de um recall ur-gen-te.

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