Beija-me, idiota! (1964)

Dean Martin provando a suculenta carne de Kim Novak, aqui na pele de uma dublê de esposa

Dean Martin provando a suculenta carne de Kim Novak, aqui na pele de uma dublê de esposa

A piada é impagável. Dean Martin, numa paródia de sim mesmo nessa deliciosa comédia de Billy Wilder, é Dino. Ou seja, um cantor de sucesso fissurado em mulheres que vai parar no trailer de uma dublê de prostituta que o esnoba pelo seu estilo de cantar.

“Imagino que nunca tenha ouvido falar dos Beatles?”, diz ela.

“Claro. E canto melhor do que os três”, nem titubeia o cantor galã.

“São quatro”, corrige energicamente a garota.

“Não soube? Um deles deixou o cabelo na guitarra e foi eletrocutado” ironiza.

Rápida como um gatilho no oeste, a anedota traz na sua essência a inconfundível marca de um dos mais importantes roteiristas e cineastas que já passou por Hollywood. Por sinal, um dos meus heróis do cinema. Nascido na Alemanha, Billy Wilder chegou à América no auge da indústria cinematográfica fugindo do bafejo do mal de Adolf Hitler.

E como todo imigrante europeu que arriscou a seguir no ramo naqueles pioneiros anos, comeu o pão que o diabo amassou, até conseguir escrever seus primeiros roteiros. Para sair detrás da mesa para o olho na câmera foi um passo e logo se tornaria um dos grandes da sétima arte com títulos consagrados na história como Crepúsculo dos deuses (1950), A montanha dos sete abutres (1951), Quanto mais quente melhor (1950), Se meu apartamento falasse (1960)e Beije-me, idiota! (1964), que revi outro dia quase morrendo de ri.

Sim, porque Billy Wilder era assim. Falava de coisas seriíssimas com um grau de irreverência e Beija-Me, Idiotacinismo incômodos, mas agindo como se nada tivesse acontecido. Isso porque em todas as suas histórias o ser humano era um canalha incorrigível e, na maioria das tramas, os heróis românticos sujeitos com extrema vocação para ser gigolôs e prostitutas. Fosse ele o diretor de Os dez mandamentos, teria colocado Moisés vendendo entrada para a passagem do Mar Vermelho. Quer ver?

Em Beija-me, idiota!, Ray Walston é um simplório professor de piano chafurdado numa pequena cidade do interior de Nevada que nutre um ciúme doentio pela bela esposa Sofia (Felicia Farr). O sonho dele e do amigo Cliff Osmond, o frentista do único posto da cidade, é de se tornarem numa dupla de sucesso do show bussiness e a grande chance parece ter caído do céu com a chegada à cidade do grande astro da música, Dino (Dean Martin, num papel que só poderia ser dele).

Ele, Dino/Dean Martin, está ali por acaso, depois que um trecho da rodovia teve que ser desviado para este fim de mundo e, não tão por acaso também, ele cai nas mãos desses dois compositores amadores que irão fazer de tudo para vender uma música para ele. Inclusive entregando de bandeja a sensual esposa disfarçada na pele da prostituta Polly the Pistol (Kim Novak, numa reencarnação suculenta de Marilyn Monroe).

A habilidade com que Billy Wilder e o co-roteirista I. A. L. Diamond lapidam frases cheias de duplo sentidos, acompanhadas de situações embaraçosas, uma a atrás da outra, ao longo do filme é de tirar o fôlego. Ainda mais quando tem como protagonista dessas pérolas ninguém menos do que Dean Martin, um dos galãs comediantes mais festejados de sua época.

Claro que a hipócrita sociedade do início dos anos 60 não gostou nem um pouco de ver uma esposa de família se passar por prostituta para ajudar o marido a vender suas canções, mesmo que fosse para o Dean Martin. Resultado: esnobado pela crítica e repudiado pelo público, o filme amargaria um senhor fracasso. Passado 50 anos depois de sua estreia, Beija-me, idiota!, parece tão inocente como um passeio de Chapeuzinho vermelho pela floresta.

* Este texto foi escrito ao som de: Dino: Italian love songs (Dean Martin – 1962)

Dino

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