Nicolas Behr – BrasíliA –z

O poeta durante a Bienal do Livro de Brasília: "Brasília precisa de mim", diz.

O poeta durante a Bienal do Livro: “Brasília precisa de mim”, diz.

Goste ou não, Brasília precisa de Nicolas Behr. E quem disse isso, sem dar a menor pelota para a modéstia, foi o próprio poeta, durante a Flip – Feira Literária Internacional de Paraty, de 2011. Quando soube dessa declaração, emocionada e orgulhosa, a filha de Lucio Costa não vacilou. Pegou o telefone e ligou para o autor de livros como Poesília, La brasilíada e Braxília revisitada. “E precisa, mesmo, Nicolas! Precisa muito de você, sim!”, disse ela, do outro lado da linha.

De longe o poeta mais importante da cidade, Nicolas Behr, apesar de não ser daqui – mas do Mato Grosso -, tem com Brasília uma relação de sangue, corpo e alma. Enfim, definitivamente o escriba tem o lugar na palma da mão. Afetiva e fisicamente. Para demonstrar isso, ele acaba de lançar mais um livro em homenagem à cidade em que vive desde os anos 70. Produção independente, BrasíliA-z – Cidade-palavra é um minidicionário amoroso e afetivo com 206 verbetes sobre o quadrado localizado no coração do Planalto Central.

“Queria compartilhar 40 anos de Brasília, as coisas que eu sei, as coisas que acho interessante as pessoas saberem”, me contou ele durante a Bienal. “Gostei muito de fazer o livro, dei o melhor de mim, caprichei, é um presente para a cidade, um diálogo com a cidade que me recebeu quando chegue aqui nos anos 70”, emendou, com aquele jeitão simpático de ser.

E o livro é caprichado mesmo. Mais uma vez, Nicolas Behr acertou em cheio. O único problema é que essa deliciosa obra é curta demais. Você acaba de ler o livrinho que tem mais informação do que parece ter e fica com vontade de ler mais. Sei lá, meio assim com água na boca e os dedos coçando. Divertido, engraçado, crítico, irônico, informativo, contemplativo e carinhoso, BrasiliA-z tem ainda o importante papel de reparar equívocos e injustiças históricas. Se não fosse pelo poeta, ninguém saberia, por exemplo, quem foi ou que relevância teve um Joaquim Cardozo, o engenheiro responsável por calcular as curvas de Niemeyer.

Ou ainda anedota incríveis, como a de outro engenheiro que, por medo de uma brincadeira de JK, mandou cortar uma árvore próxima do acampamento só porque o presidente disse que mandaria enforcá-lo caso ele não concluísse determinada obra dentro do prazo. “Vai no barracão, pega um machado e corta aquela árvore. Agora”, deu a ordem.

Culturalmente bastante ativo na cidade, Nicolas Behr transitou com desenvoltura em todas as tribos e correntes. Também esbarrou com todo mundo. Comprou vinis das mãos do Renato Russo, cansou de ver shows da Cássia Eller em pé no Bar Bom Demais, vendeu seus livros nas apresentações de um então desconhecido Djavan bem ali na Escola Parque. Ele era da Turma dos Cabeças, mas sempre esbarrava com a Turma da Colina – a “tchurma do Renato Russo” – na rodoviária do Plano recarregando as baterias depois de uma noitada com pastel Viçosa e caldo de cana. “Eram alegres e inofensivos. Tudo pose. Super criativos”, descreve no verbete dedicada à gangue punk.

Há muitas lendas urbanas, “causos”, histórias pessoais entrelaçadas com a rotina da cidade, mas em todas elas Brasília é personagem principal. E tudo escrito com esmero de um ourives da palavra. Alguns verbetes o poeta levou a tarde inteira para deixar do jeito que queria. Muito do que está ali foi extraída de sua monumental biblioteca que tem mais de 500 títulos dedicados só à Brasília. “Quando cheguei aqui Brasília parecia uma esfinge. Não a decifrei ainda, mas ela também não me devorou”, ironiza, com seu estilo inconfundível.

* Este texto foi escrito ao som de: Dois (Legião Urbana – 1986)

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Cinco suculentos verbetes de BrasíliA – z

Arco do Triunfo – Quando Brasília for demolida, daqui centenas de anos, a única obra arquitetônica que será poupada é aquele monumento mau gosto na entrada do Pontão, no Lago Sul. Quem não viver não verá.

Costura – Pegue a agulhinha, caia na tesourinha e com as linhas do Eixão comece a costurar a cidade. E depois descosture. Brasília é desdobrável.

Filhas de JK – O nome das esculturas, em bronze, no espelho d’água do Palácio da Alvorada é As Iaras, mas a conhecemos como As banhistas, obra de Alfredo Ceschiatti. Mostram duas mulheres com as mãos na cabeça. Dizem que são as filhas de JK puxando os cabelos, pois não queriam vir morar em Brasília.

Galera – Nos tempos da minha juventude não usávamos a palavra tribo. Nem, “e aí, véi!”. Falávamos joia, bacana, legal, barato, bicho, cara, lance… Galera? Não usávamos.

Pombal de Dona Eloá – Dona Eloá, a esposa do presidente Jânio Quadros, pediu a Niemeyer um ninhal para as pombas da Praça dos Três Poderes. Aquele monumento (!), que mais parece um prendedor de roupas, foi a única obra que Jânio Quadros fez em Brasília nos 207 dias do seu mandato, pois renunciou.

Telefonema – Em 1980 eu estava no Rio de Janeiro e resolvi ligar para o Drummond. Ele atendeu com toda a gentileza. Eu o chamava de “Sr. Carlos”. Disse a ele que estava preparando um livro chamado O Drummond Brasiliense, fazendo paródias de seus poemas, transpondo-as para Brasília. Ele ouviu, pacientemente, alguns poemas-paródias e no final disse: “Olha, cuida da sua poesia. Deixa a minha em paz”.

Yvanet – Ela morava na mesma quadra do que eu, a 415 Sul. Num sábado à tarde, perguntei se queria passear comigo na beira do Lago. Topou. O Paranoá ficava perto, atrás da Vila Telebrasília. Eu tinha uns 16 e ela, uns 14. Chegamos à beira do Lago, onde ainda existem aqueles pés enormes de eucaliptos. Sentado num tronco caído, pedi que ela tirasse a blusa (estava sem sutiã) e desfilasse para mim os seios nus.

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