O velho fuzil (1975)

O filme conta a tragédia de uma família inteira engolfada pelas agruras da guerra

O filme conta a tragédia de uma família inteira engolfada pelas agruras da guerra

Mountauban, França. 1944. Anos de guerra, truculência, sangue, morte e tudo o que o médico humanista Julien Dandieu (Philippe Noiret) quer saber é cuidar dos seus feridos. “Não faço política!”, avisa, quando avista um pequeno pelotão nazista invadir o hospital em que trabalha. Mesmo assim, ele perde a batalha e – preservando a integridade da família -, vê um paciente seu todo estropiado, acusado de terrorismo, ser levado para prisão.

Vencedor do César de melhor filme em 1976, O velho fuzil, de Robert Enrico, que acaba de sair em DVD pela Versátil Vídeo, incomodou público e crítica na época de seu lançamento. O público pela violência, a crítica pelo clichê temático. Clichê temático?! Bem, ficaram incomodados com plot do justiceiro que quer vingar a morte da família. Será? Bom, sem se abalar, o cineasta se defendeu. “Todos os temas já foram explorados no cinema em vários filmes, mas nem todo mundo viu esses filmes”, ironizou.

Fuzil 2E é com ironia que o diretor abre O velho fuzil, quando mostra Dandieu e a família num passeio idílico de bicicleta pelo Sul da França. Corte e logo o vemos em apuros no hospital, na sequência narrada acima. Ao voltar para casa, ele cai nos braços da filha e da mulher Clara (Romy Schneider), ao som de tiros e imagens de soldados enforcados pelo caminho.

Preocupado, não pensa duas vezes. Com ajuda do amigo François (Jean Bouise), consegue levar a esposa e a filha sãs e salvas, para um castelo que tem no interior do país. Mas o que era para ser um porto seguro se transforma na sucursal do inferno. Isso porque quando o médico chega para rever a família, encontra não só eles mortos, mas todo o vilarejo, dizimados pela chacina selvagem dos nazistas.

A cena em que ele destrói, a socos e pontapés, uma imagem de Cristo – mostrando sua descrença no divino depois de tudo o que aconteceu -, dentro da Igreja, é de fazer inveja aquele pastor evangélico que andou chutando uma santa católica no passado. Revoltado, abalado, ensandecido, Dandieu recupera então um velho fuzil usado pelo pai para matar javalis e se transforma num autêntico selvagem, um justiceiro da família e do vilarejo em que mora, enfim, um Rambo de terno e gravata que não deixa pedra sobre pedras. Preste atenção na sequência bem construída em que nosso herói queima um oficial nazista com um lança-chamas tendo apenas como barreira um espelho. Mero lirismo do caos.

Em entrevista disponibilizada como extras do DVD, o diretor Robert Enrico revela que foi motivado a realizar o filme por lembranças da infância e que o projeto, apesar de todo mundo falar da violência, é um libelo contra as atrocidades da guerra. Mais do que isso, explica que os horrores do front é tema secundário em seu filme, chamando atenção para a alegria e romantismo que impera no affair turbulento entre o desajeitado – mas bom ator Philippe Noiret -, e a exuberante Romy Schneider. Desnudada de seus papéis de lindas princesas, ela encarnar aqui uma alegre esposa infiel que baila com desventura por entre camponeses e oficiais desejados. Um clássico do cinema mundial recuperado do limbo do esquecimento por quem gosta e entende de cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Ágaetis Byrjun (Sigur Rós – 1999)

Sigurs

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