De olhos bem fechados (1999)

Stanley Kubrick, Tom Cruise e Nicole Kidman entre sexo, ciúmes e voyerismo...

Stanley Kubrick, Tom Cruise e Nicole Kidman entre sexo, ciúmes e voyerismo…

Sendo bem sincero. Só comecei a prestar atenção de verdade em Stanley Kubrick na faculdade. E de trás para frente. Explico. Já tinha assistido a 2001: Uma odisseia no espaço, claro, sabia que o épico Spartacus era dele e que ele tinha feito um filme sobre pedofilia, mas não me aprofundara. Só fui fazer isso na faculdade e o ponto de partida foi o polêmico e último trabalho que dirigiu, ou seja, o suspense psicológico De olhos bem fechados.

Meticuloso, Kubrick levou mais de dez anos para filmar um filme depois de Nascido para matar e foi buscar uma história que há tempos flertava, um texto do médico e austríaco Arthur Schnitzler, Breve romance de sonho.

Para quem conhece ou já leu alguma coisa de Arthur Schnitzler, deve saber que suas tramas são norteadas pela psicanálise e os meandros do mundo do sexo em todas as suas nuances. Pela psicanálise porque o tema era recorrente em seu tempo e o escritor e médico era amigo, distante, mas amigo de Sigmund Freud. Já o sexo diz respeito a uma experiência de vida.

A adaptação de Kubrick e Frederic Raphael para este universo repleto de perversidades e voos do inconsciente nos leva para a Nova York dos dias Mascaraatuais. Mas precisamente para dentro do quarto do casal Bill e Alice. Tom Cruise e Nicole Kidman. Ele é um médico bem sucedido e ela uma especialista em arte desempregada. Eles transitam pela alta sociedade e, um dia, são convidados para uma festa glamorosa na casa de Victor Ziegler (Sydney Pollack).

Tem início aí uma jornada reflexiva e exemplar sobre o desejo, ciúme, voyeurismo e fidelidade. “Sexo no andar de cima”, responde a maliciosa Alice, sob efeito de baseado, respondendo uma pergunta do marido, na defensiva, por também estar flertando com garotas na festa.

Não sei se foi intenção de Kubrick, mas assistimos ao filme, do começo ao fim, excitados, como se estivemos em estado de desejo durante toda a exibição. A valer pelo talento intuitivo e provocativo do cineasta, talvez essa tenha sido mesmo sua intenção. E quando nós vemos a deliciosa Nicole Kidman com sua pele alva como a neve, despida ao longo da trama, como se fosse um saboroso aperitivo, aí sim, vemos que ele foi bem matreiro.

Misterioso, o filme, norteado por uma fotografia renascentista, é permeado de códigos sombrios não decifrados depois que os créditos começam a subir. A referência sutil ao arco-íris de Dorothy em O mágico de Oz, o Fidelio da Ópera de Beethoven ou aquela nebulosa sociedade secreta com seus faunos e rituais macabros. “Não são pessoas comuns. Nem vou dizer os nomes delas porque você não vai consegui dormir”, avisa Ziegler, tentando livrar o rabo.

Nos corredores da faculdade, era comum o burburinho das pessoas comentando a espetacular cena de orgia, protagonizada por lindas e deslumbrantes mulheres. Verdadeiras deusas do prazer escolhidas a dedo. Claro que De olhos bem fechados é muito mais do que este momento de êxtase, com sua intricada armadilha narrativa costurada entre o sonho e a realidade, mas até hoje a cena continua incólume no inconsciente do fauno aprisionado dentro de cada um de nós. Homens ou mulheres.

“A realidade de uma noite, para não dizer de uma vida inteira, pode ser toda a verdade”, ironiza cheia de mistérios a saborosa Alice.

* Este texto foi escrito ao som de: Mighty Joe Moon (Grant Lee Buffalo – 1994)

Joe Moon

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