Entre chineses e africanos na Bienal

Entrevistando o presidente de Gana no Royal Tulip, que medo...

Entrevistando o presidente de Gana, Dramani Mahama  no Royal Tulip, que medo…

O escritor moçambicano Mia Couto achava que falava francês e foi participar de uma palestra em Paris, mas na hora “h”, precisou de ajuda com a língua de Victor Hugo e Charles Aznavour. E como tem brasileiro em toda parte do mundo, lá estava um pianista na plateia que tentou ajudá-lo com a pergunta embaraçosa do entrevistador. O cara falou, argumentou e aprofundou na tese mirabolante sobre o mundo globalizado, mas o herói do escritor africano não entendeu bulufas e mandou na maior cara de pau:

– Não entendi porra nenhuma, fala qualquer merda! – aconselhou o amigo atrapalhado.

A história, de chorar de ri, foi contada pelo próprio Mia Couto na Bienal do Livro e da Literatura, e arrancou gargalhada estrondosa do público, que estava fascinada pelo autor de Terra sonâmbula e O fio das missangas.

Aliás, tratado como pop star, com milhares de fãs se acotovelando para conseguir um autógrafo, o escritor fez bastante sucesso entre o público feminino. Quando perguntei sobre isso, ele deu uma de mineiro. “Não sei dizer, é?! Acho que é pelas histórias que teve grande aceitação, escrevi um livro, O fio das missangas, em que as histórias foram ditas no feminino, acho que foi por causa disso”, desconversou.

BienalJá o português de Gonçalo Tavares mostrou desenvoltura com a cultura brasileira, se dizendo fã da arquitetura de Oscar Niemeyer, da escrita de Clarice Lispector e do cantor e compositor Chico Buarque. “Há uma diferença gigantesca entre a música popular brasileira e a música popular em Portugal. Em Portugal são de uma pobreza impressionante, rimam amor com dor. No Brasil, é como se os escritores emprestasse palavras aos compositores”, comparou.

E tanto fucei que consegui uma entrevista com o presidente de Gana, John Dramani Mahama. Figura singular o cara, um dos líderes africanos mais importantes da atualidade. Pensei que os seguranças dele iam rasgar minha roupa ou me rasgar todo me revistando, mas tudo bem, para conseguir uma entrevista como essa, somos capazes de qualquer coisa. Até mesmo de levar safanões de segurança de presidente. Por sinal, John Dramani Mahama foi a autoridade mais importante que entrevistei na minha vida.

Para finalizar, um bate-papo bem sincero e cheio de revelações com o escritor chinês Murong Xuecun, que está travando uma queda de braços com o governo de seu país na luta contra a censura. É a luta de Davi e Golias, São Jorge contra o dragão da maldade. “Na China, todas as editoras, jornais, revistas, televisões pertencem ao governo. Tudo. O fato é que ninguém gosta de censura. A liberdade de imprensa é muito importante”, me disse ele. “Eu quero que os estrangeiros vejam a China de verdade. Isso é o mais importante para mim”, confessou.

* Este texto foi escrito ao som de: Graceland (Paul Simon – 1986)

Granceland 2

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