O encantador de plateias

Mais uma vez esse velhinho encantador me fez chorar em sua passagem por BsB

Mais uma vez esse velhinho encantador me fez chorar em sua passagem por BsB

Definitivamente as massas gostam é dos velhinhos. Depois do escritor uruguaio, Eduardo Galeano causar o maior furor em sua passagem pela 2ª Bienal Brasil do Livro e da Literatura como um dos homenageados da festa literária, agora foi a vez do grande mestre, Ariano Suassuna, promover uma verdadeira catarse emocional no público que lotou o Museu da República Honestino Guimarães só para vê-lo e ouvi-lo. Eu estava lá e me emocionei pacas. Em alguns momentos chorei de rir das histórias deles, mas também pelo jeito autêntico dele expressar o seu amor pela cultura nordestina, a cultura popular brasileira, o Brasil.

“Agradeço muito por vocês estarem aqui, senão eu não viria de jeito nenhum”, disse com ternura o autor de textos clássicos como O auto da compadecida e A pedra do reino, além do idealizador do mítico movimento Armorial. “Quero pedir desculpas a vocês por cauda da minha voz que é feia, baixa, fraca e rouca mesmo”, emendou, arrancando aplausos calorosos.

Quem passasse pelo local e visse aquela fila de dar volta no quarteirão chegando ao prédio da Biblioteca Nacional, não ia entender nada. Ou pelo menos pensar outra coisa. Mas não, não era show de rock e sim um encontro com um dos maiores nomes da cultura no Brasil. Um dos homenageados do evento, Suassuna, emocionou multidões e deixou se emocionar.

BienalTodo vestido de branco, bem à vontade e cheio de energia, aos 86 anos, o grande mestre, que está prestes a lançar seu mais recente livro, O jumento sedutor, também queria abraçar todo mundo, o que fez com um gesto simbólico carinhoso. “Não tenho muita coisa para dizer, não”, tirou sarro de seu prestígio, de sua unanimidade.

Ariano Suassuna sabe que é engraçado e sabe que é amado por todos. Por isso comportou como tal e deu de presente uma palestra encantadora do começo ao fim. Sua retórica simples é tão cativante que o público não quer deixar as cadeiras, não quer ir embora jamais. Ou melhor, de tão apaixonado, querem levá-lo para casa.

“Gosto de rir e gosto de fazer rir”, admitiu.

E pegando carona na deixa, lembrou estórias e causos engraçadíssimos. Citando Lima Barreto, o grego Aristóteles e os filósofos franceses, Henri Bresson e Albert Camus, falou das duas categorias das belezas: aquela que causa desarmonia e a que causa dor.

“A cultura brasileira e, particularmente, a nordestina, de um modo geral é trágica e cômica”, explico com a sabedoria de seus quase nove décadas de vida. “Eu não pretendo morrer, não”, brincou.

As histórias e as lembranças vinham num fluxo hipnotizante. Lembrou de quando conheceu a mulher com quem vive desde 1947, recitou sonetos e cordéis e confidenciou que é lesado de imaginação. “Todo escritor é um mentiroso, vocês já repararam?”, perguntou. “Eu mesmo não tenho imaginação para nada, eu copio, sou um plagiador cômico”, diz arrancando gargalhadas estrondosas.

Ao falar de sua obra mais famosa escrita em 1955, a peça O auto da compadecida, disse que ela foi inspirada num texto clássico de um escritor espanhol medieval e recordou de quando estreou pela primeira vez no Rio de Janeiro com o clássico texto dois anos depois e a crítica burguesa comparou o personagem João Grilo ao anti-herói Macunaíma, de Mário de Andrade. A comparação deixou o escritor, dramaturgo e poeta furioso. “Anti-herói nada. O pai de Macunaíma podia chamar ele um herói sem caráter, João Grilo, não!”, esclareceu.

Para finalizar, disse que sempre teve vontade de ser palhaço e que só não pintou a cara porque a mãe não deixou. E falando de outros palhaços, os políticos que governam mal o país, que eles não estão à altura da grandeza do povo e do Brasil. “É uma gente que não presta”, mandou o recado.

No dia seguinte, tentei esbarrar com ele no Hotel Nacional para um bate-papo, um rápido aceno, mas o velhinho não estava mais. Assim como o João Grilo, seu personagem mais famoso ele tinha dado no pé.

* Este texto foi escrito ao som de: Aralume (Quinteto Armonial – 1976)

Aralume

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