Eu, Eduardo Galeano e a Bienal!

O escritor uruguaio em coletiva realizada em Brasília: elegância e ironia

O escritor uruguaio em coletiva realizada em Brasília: elegância e ironia

Quando comecei a fazer faculdade, o nome de Eduardo Galeano era uma lenda entre professores e alguns alunos. Entre aqueles mais espertos e mais interessados, claro. Eu, com cara de boboca era o único que não sabia quem era o escritor uruguaio e que não tinha lido ainda, veja você, As veias abertas da América Latina, sua obra mais importante. Até hoje eu não li o livro e um misto de vergonha e lamento se apossou de mim quando participei de uma coletiva com o ícone da literatura na última sexta-feira (11/04), no Hotel Mileá. Uma pena mesmo porque o cara é uma graça, com seu estilo irônico e refinado.

“Estou me sentindo sufocando com tanto carinho”, disse ele, surpreendido com a acolhida do povo brasileiro em virtude de sua vinda à 2ª Bienal do Livro e da Literatura.

Também pudera, já que ele fora tratado como celebridade pop e a força do prestígio do escritor uruguaio pode ser conferida com filas enormes e princípio de bagunça durante sua chegada ao auditório do Museu Nacional da República Honestino Guimarães, onde participou de palestra. Ovacionado de pé pelas centenas de pessoas que lotaram o espaço, Eduardo Galeano brindou os presentes com histórias trágicas e tragicômicas de personagens, lendas, paisagens, acontecimentos históricos e políticos da América Latina e do mundo. Eu, particularmente, não vou esconder que fiquei arrepiado e me senti orgulhoso de ser apenas mais um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, no banco, seja lá onde for.

No auge de seus 73 anos, Galeano, um dos homenageados do evento ao lado do mestre Ariano Suassuna, demonstrou sabedoria, elegância e uma fina ironia rara nos escritores brasileiros ao responder as perguntas dos repórteres brasileiros. Falando um português melhor do que o meu, com sutil sotaque em português, ele disse que não tem nenhuma expectativa com relação à Copa do Mundo no Brasil. “Não acredito nos profetas bíblicos, muito menos nos profetas esportistas, então o que se tem a fazer é calar a boca e esperar”, disse categoricamente.Bienal

Ao falar de sua obra mais importante, disse que não tem apego, que o mundo está mudado, que ele mudou e que hoje aprofunda na realidade do continente latino-americano de outra maneira. “Se fosse reler o livro hoje cairia desmaiado, não agüentaria”, brincou.

Ao responder a minha pergunta irresponsável e mal formulada sobre o possível fracasso na América Latina o escritor foi prudente ao dizer que não é bem assim, que existe o lado bom e ruim da ideologia. “É uma afirmação arriscada. A esquerda foi demolida muitas vezes por ter dado certo. Foi castigada pelas ditaduras, pelos sacrifícios humanos e pelas barbaridades cometidas em nome da paz, do progresso e da democracia. Por períodos, a esquerda também cometeu erros gravíssimos. A realidade tem o poder da surpresa. Até porque dá respostas a perguntas não formuladas”, filosofou.

Pego de surpresa com meu espanhol ruim, pensei que ele tivesse me chamado de idiota e dito na frente de todo mundo que eu tinha feita uma pergunta mal formulada. Não foi nada disso, até porque ele é um gentleman e de uma elegância ímpar. Mas quer saber? Bem que seria um luxo ser chamado de idiota pelo Eduardo Galeano. Seria o maior elogio feito por um dos mais pensadores dos últimos séculos.

* Este texto foi escrito ao som de: Alucinação (Belchior – 1976)

Belchior - Alucinação

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