Barry Lyndon (1975)

Artesão da imagem, Kubrick, fez de cada sequência desse filme uma aventura pictórica

Artesão da imagem, Kubrick fez de cada sequência desse filme uma aventura pictórica

Bem, até que se diga o contrário, para mim, Barry Lyndon, com suas três horas de duração, é de longe o melhor filme de Stanley Kubrick e ponto final. E por vários motivos, mas, sobretudo, pelo estilo clássico da narrativa e, claro, pela elegante e soberba fotografia premiada com um Oscar mais do que merecida. O trabalho um tanto quanto desconhecido do grande público ainda levaria as estatuetas de melhor trilha sonora, direção de arte e figurino, enfim, todos eles quesitos técnicos, departamentos que o cineasta fazia questão de acompanhar de perto. Muito de perto.

E o perfeccionismo do diretor fez com que ele pesquisasse sobre esse projeto por quatro longos anos, que é o hiato entre essa produção e seu filme anterior, Laranja mecânica. Na trama baseada em livro de William Makepeace Thackeray, Kubrick adapta para as telonas uma história do século 18 que, de certa forma, é sobre todos nós.

Trata-se da trajetória de ascensão e declínio do jovem irlandês Redmond Barry (Ryan O’Neal, em atuação estupenda e no auge da carreira), um camponês que após um crime em sua aldeia, ganha o mundo até se tornar um homem de posses em Londres, ao se casar com Lady Lyndon (Marisa Berenson). Antes disso, ele viveria uma série de aventuras, sendo desertor do exército britânico, prisioneiro recrutado do exército prussiano, o inimigo, jogador malandro de carteado nas cortes, espião e amante imoral.

“Barry era um sujeito Inteligente para fazer fortuna, mas não para mantê-la”, diz o narrador, em Barry Lyndon 2tom de farsa, o que o filme é do início ao fim. “Foi no reinado de George III que os personagens citados viveram e brigaram. Bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres, agora eles são todos iguais”, diz a melancólica nota final do filme, numa síntese humana devastadora.

A exuberância do visual de Barry Lyndon foi algo sem precedente no cinema até então. A perfeição é tamanha que o filme passaria sem problema como se fosse uma produção dos dias de hoje, filmada em digital e maquiada com todos os tipos de truques e efeitos. Mas como grande artesão da imagem que era, Kubrick fez questão de filmar o longa inteiro com luzes naturais, sempre rodando das nove da manhã às três das tardes e usando lentes especiais para as cenas, o que dá um caráter pictórico deslumbrante ao filme. Aliás, algumas sequências parecem, de fato, telas em movimento, o que só nos faz aproximar do enredo vitoriano de Barry Lyndon.

“Em geral, o que me atrai é um tema que oferece possibilidades visuais interessantes. (…) Barry Lyndon estava nessa terra misteriosa do desejo de criar. É tão indefinível quanto tentar explicar por que achamos uma mulher atraente ou porque nos casamos com outra”, ironiza o diretor sobre a escolha do escritor Thackeray no livro Conversas com Kubrick, do crítico francês Michel Ciment.

Vale lembrar que o cineasta embarcou nesse projeto depois de desistir de fazer um filme sobre a vida de Napoleão Bonaparte, um de seus ídolos. E fico pensando o que esse artista visionário e talentoso faria com uma das figuras mais emblemáticas da história no cinema. Deus realmente não dá asa à cobra.

* Este texto foi escrito ao som de: Quando o carnaval chegar (Chico Buarque, Nara Leão & Maria Bethânia – 1972)

Quando o carnaval chegar

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2 comentários sobre “Barry Lyndon (1975)

  1. Também acho Lúcio! Kubrick é na minha opinião um dos maiores gênios do cinema. Seus métodos de filmagem e sua obsessão poderiam ser questionados, mas nunca sua obra. Até onde os meios justificam os fins? heuheu! Bom quando eu penso no Kubrick, eu esqueço dos meios 😉

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