Valsa Nº 6 no CCBB

É a primeira vez que um texto de Nelson Rodrigues é adaptado com esse formato

É a primeira vez que um texto de Nelson Rodrigues é adaptado para o teatro com esse formato

E quem disse que criaturas inanimadas não podem ter vida? O carioca Grupo Portátil de teatro provou que sim, com a inusitada e ousada montagem para boneco da peça psicológica de Nelson Rodrigues, Valsa Nº 6, em cartaz em curta temporada no CCBB Brasília. Hoje, infelizmente, é o último dia, mas se você correr dá tempo de ver ainda.

Basta dizer que é a primeira vez que um texto do nosso maior dramaturgo é adaptado para o teatro nesse formato. Confesso que gostei muito do que vi. Se algum dia o espetáculo voltar à cidade, por favor, não fique por aí marcando bobeira tentando ver qualquer bobagem nos cinemas da cidade. Corra para o teatro.

Texto de 1951, Nelson Rodrigues escreveu a peça na tentativa de lançar a irmã Dulce Rodrigues como atriz, então – como na música de Fábio Jr. -, uma jovem de 20 e poucos anos bonita e prendada, que sabia, entre outras coisas, dançar balé e tocar piano. Mas o dramaturgo se viu motivado a escrever um monólogo de verdade, depois de presenciar todos os dias, na porta do Teatro Dulcina, na rua Alcindo Guanabara, Copacabana, filas de dobrar o quarteirão para ver a peça de Pedro Bloch, As mãos de Eurípides. Estarrecido com o sucesso alheio, ele esperava o monólogo terminar para perguntar deslumbrado ao colega:

“Quanto deu? Quanto deu?”.

A ideia de construir um texto em que um único ator vivia um elenco inteiro de personagens imaginários parecia um sundae para um autor criativo e revolucionário como Nelson, mas liricamente falando, ele foi buscar inspiração para o seu poema dramático em algo mais tocante. Como conta o jornalista e biógrafo Ruy Castro em O anjo pornográfico, todas às vezes que ele lanchava sozinho, numa leiteria na Cinelândia, ouvia dos fundos do cinema Império os sons do filme, À noite sonhamos. Na trama, Cornel Wilde, no papel do tuberculoso Chopin, tocava todos os dias a dita valsa para uma suspirante George Sand, interpretada por uma tal de Merle Oberon. Mais poético e suburbano do que isso impossível.Nelson

Acontece que o texto de Nelson Rodrigues na época, embora prestigiada pela crítica, foi um retumbante fracasso de público. Uma injustiça reparada com o tempo por montagens sensíveis e criativas como essa da Cia Portátil. Em cena, os atores Flávia Reis, Júlia Scheffer e Guilherme Miranda, sob a batuta do diretor Alexandre Boccanera, se revezam para dar vida a Sônia, personagem onipresente em forma de boneca cuja estética foi inspirada na personagem Noiva cadáver, de Tim Burton. Ela está morta, mas não sabe que morreu. Na verdade, ela não sabe de nada. Sua voz vinda do túmulo, do além mundo, perambula fantasmagórica pelo espaço em busca de respostas que não podem ser respondidas.

“Quem é Sônia?… E onde está Sônia?”, diz a boneca espevitada, em busca de sua existência inexistente.

Dando voz a vários personagens, a mãe, o pai, o médico da família, a mulher vulgar, o bêbado e o noivo, enfim, ela vai, de forma fragmentada, construindo pistas de sua trajetória, daquilo que foi ou o que não é mais, ou pior, o que é de fato, ou seja, uma menina de quinze anos assassinado por seu amante casado.

Elementos cênicos e narrativos diversos como pequenos balcões/mesas, simbolicamente representando pianos, inúmeras variações do tema central, a Valsa Nº 6– algumas bem modernas -, e lindas animações sombrias impressionistas, elaborados por um casal de brasileiros radicados no Canadá, ajudam a montar esse quebra-cabeça psicológico divertido e bizarro que só o genial Nelson Rodrigues poderia criar.

* Este texto foi escrito ao som de: Cripple Crow (Devendra Banhart – 2005)

devendrabanhart-cripplecrow

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