Laranja mecânica (1971)

Alex, o delinquente personagem do livro vivido de forma excepcional por Malcolm McDowell

Alex, o delinquente personagem do livro vivido de forma excepcional por Malcolm McDowell

De tal surreal, a história parece folclórica, mas aconteceu de verdade. Depois de trabalhar no Serviço Colonial Britânico na Malásia, entre 1954 e 1960, o escritor Anthony Burgess recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro. Desesperado e inconsolado, ele voltou para casa e escreveu o maior número de livros que conseguiu. Entre os títulos estava Laranja mecânica.

 Clássico da ficção científica junto com obras referências como Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell e Fahrenheit, de Ray Bradbury, o livro, que li impactado, deu origem à marcante adaptação homônima de Stanley Kubrick em 1971. O filme icônico ficou tão fixado no inconsciente coletivo das pessoas, que muitas delas esqueceram que Burguess era o autor real da obra. Talvez por isso mesmo, em 1987, ele revisitou seu trabalho num musical na tentativa de reconquistar sua “autoria” da história. Ah, sim, e a história do tumor cerebral foi um equívoco médico já que o escritor viveria até os 76 anos de idade.

Histórias tragicômicas a parte, não tem jeito de falar em Laranja mecânica e não se lembrar do filme de Kubrick, indicado a quatro Oscar, inclusive melhor filme, diretor e roteiro adaptado. A infame e trágica trajetória de Alex, um jovem delinquente que tocava o terror pelas ruas de uma Londres futurística e decadente, influenciou milhares de artistas mundo afora, sendo talvez uma das referências pop cinematográficas mais revisitadas dos últimos tempos.

Há quem diga que David Bowie se inspirou no visual andrógino do personagem do filme para criarCapa da nova edição do livro Laranja Mecânica o igualmente bizarro Ziggy Stardust. Na canção The fly, do U2, os versos “Alex descends into hell for a bottle of Milk/Korova 1”, é uma citação explícita ao filme e por aí vai.

Mas quando Laranja mecânica foi lançado, a hipócrita sociedade da época e os críticos, chocados com a violência que viram nas telas, torceram o nariz. Irritado com a repercussão negativa da fita, banida na Inglaterra e em países como o Brasil, Kubrick recolheu as latas dos filmes dos cinemas. Sobretudo depois que uma onda generalizada de crimes foi associada às estripulias de Alex e sua gangue. A intolerante e temida crítica de cinema Pauline Kael cuspiu na cara do diretor ironizando que ele teria “assumido a perspectiva deformada de um jovemzinho depravado”.

O fato é que, gostem ou não, não tem como ignorar o tom profético do filme que fala, entre outras coisas, da institucionalização da violência. Estão aí os Black blocs para não me deixar mentir. Depois de cometer inúmeras atrocidades, uma delas, cinicamente ao som de Singing in the rain, o jovem Alex vai parar numa instituição de reabilitação. A sequência em que ele passa por uma lavagem cerebral, com os olhos estatelados diante das piores atrocidades humanas, é tragicômica. É a violência dentro da violência, a violência de cima para baixo.

“É a terceira idade indo à forra contra a juventude”, debocha de sua própria desgraça, ao ser linchado por mendigos idosos depois de deixar a clínica, completamente incapaz de cometer qualquer gesto de violência física ou sexual.

Perambulando entre o kitsch e o clean, com trilha norteada por Beethoven do início ao filme e narrativa pontilhada de humor negro, Kubrick mais uma vez provou ser aqui um cineasta à frente de seu tempo. “Minha loucura é bem controlada!”, brincou certa vez em entrevista ao crítico Michel Ciment.

Já pensou se não fosse?

* Este texto foi escrito ao som de: Slideling (Ian Mcculloch – 2003)

Ian

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