Walt nos bastidores de Mary Poppins (2013)

O mago das animações com Pamela num passeio que nunca existiu na vida real

O mago das animações com Pamela num passeio que nunca existiu na vida real

Não sei por que, mas nunca assisti ao filme Mary Poppins. E olha que achava que fosse por causa da Julie Andrews, mas isso é uma bobagem já que amo A noviça rebelde. Não vi porque ficava vendo aquela mulher voando de guarda-chuva e achava meio boboca. Diga-se, de passagem, adjetivo infame usando junto com outras meias dúzias por Pamela Travers, autora do livro que inspirou o filme, para se referir aos desenhos animados de Walt Disney.

A escritora australiana radicada na Inglaterra odiava o homem que inventou a Disneylândia e todo um mundo de fantasia e, por mais de 20 anos, refutou o quanto pode para evitar que sua história fosse levada às telas. “Não se pode quebrar uma promessa feita a uma criança. Pode levar o tempo que for, mas um dia você tem que cumprir”, foi o argumento usado pelo criador do Mickey Mouse e Pato Donald à autora, como mostra o filme Walt nos bastidores de Mary Poppins, em cartaz alguns dias na cidade.

Completamente ignorado no Oscar, o filme é de uma beleza técnica fascinante, com sua reconstituição de época perfeita retinindo na impactante direção de arte e figurino, além de atuações soberbas de Tom Hanks, na pele dele, o mago das animações, e Emma Thompson como Marya escritora irredutível. O sempre competente Paul Giamatti é um show à parte num papel menor, interpretando um motorista entrão, mas simpático.

O embate entre os dois artistas aconteceu de fato, mas muito do que se vê no filme é só uma licença poética grosseira, como o passeio que Walt Disney e Pamela fizeram pela Disneylândia, que nunca aconteceu. Ou o trato melífluo do empresário com seus subordinados, quase sempre massacrado por ele na rotina do dia a dia. Tudo isso é um engodo como os detalhes de criação da adaptação do livro para as telas, acompanhado de perto pela escritora arrogante, esnobe e teimosa.

O melhor do filme é a dramatização da vida pessoal da criadora de Mary Poppins, colorida – mesmo com o rol de tragédias e dissabores -, com matizes poéticas comoventes potencializada por uma performance de peso do irlandês Collin Farrell, vivendo o pai alcoólatra, mas sensível da autora. “Dinheiro, dinheiro e dinheiro. Pense só nisso e você verá no que vai dar”, diz ele, num misto de ingenuidade e rebeldia.

É o que sempre tento explicar para as minhas sobrinhas, que as trato como se fosse personagem de romance infantil. Talvez por isso elas gostem tanto de mim e nos damos tão bem. Ou seja, porque olhamos para a realidade como se ela fosse um conto de fadas. Por isso sai da sessão ensopada de lágrimas ao ver o filme. Foi um constrangimento diante das pessoas, mas um sândalo para minha alma.

* Este texto foi escrito ao som de: Ocean rain (Echo & The Bunnymen – 1984)

Heaven up

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