Ninfomaníaca Vol. 2

Sequência de novo filme do polêmico diretor Lars Von Trier é desnecessária

Sequência de novo filme do polêmico diretor Lars Von Trier é desnecessária

Eu ainda era coroinha na Igreja do bairro onde cresci, quando uma noite, sonhei que estava numa orgia com Cristo, Nossa Senhora e mais uma meia dúzia de Santos. No dia seguinte, quando acordei, suando mais do que tampa de marmita, achei que ia me dar mal com os Céus:

– Agora sim, vou parar no quinto dos infernos! – Pensei.

Acontece que, três dias depois desse pesadelo imoral, nada de diabinhos, caldeirão pegando fogo ou cheiro de enxofre no ar, enfim, tudo correu como se não tivesse acontecido pelotas e foi quando eu percebi que essa história de céu, inferno e santidade era tudo uma bobagem infinita. Mas afinal, porque raios, eu estou contando tudo isso mesmo? Porque ontem vi uma cena no volume 2 de Ninfomaníaca similar. É quando a personagem de Charlotte Gainsbourg, ainda uma pré-adolescente, tem um orgasmo involuntário e vê a imagem da Virgem aparecer em seus delírios epiléticos.

“Nossa senhora coisa nenhuma! É Valéria Messalina, uma das maiores ninfomaníacas da história”, corrige rapidamente seu amigo, confidente e ouvinte Seligman, vivido por um formidável Stellan Skarsgard.

Bem, dito tudo isso, não sei por que, cargas d’águas, eu fui ver ontem a segunda parte do polêmico filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier. Acho que por dois motivos: curiosidade mórbida e dever do ofício, já que tinha assistido ao primeiro longa-metragem e acho que devia uma satisfação aos meus leitores, se é que os tenho.

Ninfomaniaca 3Mas confesso que achei a sessão repugnante, abjeta e imoral. Admito que não pretendo ver esses dois filmes acho que nunca mais. Na verdade, ainda não entendi aonde o diretor quer chegar com esse projeto que acho totalmente desnecessário em sua filmografia. Sobretudo quando olhamos para trás e vemos que o cara tem em uma trajetória pontilhada por obras magníficas como Dogville e Melancolia, só para ficar nesses dois exemplos.

E quer saber? Também acho essa necessidade, às vezes gratuita, dele de querer aparecer a todo custo uma estultice ululante. Não tem razão de ser, não justifica toda uma carreira marcada por trabalhos perturbadores sim, mas edificantes e, do ponto de vista filosófico existencial e moral, descentes. Ok, a primeira parte de Ninfomaníaca até que traz à baila questões pertinentes dentro desses dois prismas, além de uma premissa instigante, mas com essa última parte o dinamarquês maluco passou dos limites.

Alguém aí me explica, por favor, o que eram aquelas cenas de sadomasoquismo e referências a Cristo e seus martírios? “Preencha todos os meus buracos”, diz a personagem libidinosa de Charlotte Gainsbourg. A passagem que faz referência à pedofilia é no mínimo ultrajante e me deu vontade de parar de ler Lolita do Nabokov. Para falar a verdade, não sei como consegui ficar até o fim da sessão e teve gente ainda que falou que Ninfomaníaca Vol. 2 é sensacional. Bem, o Renato Russo é que tinha razão. “Vivemos num mundo doente”.

Em Saló ou 120 dias de Sodoma, filme dos anos 70 do igualmente imoral e polêmico, Pier Paolo Pasolini, o diretor recorre a um rol de escatologias como metáfora das barbáries políticas e imorais da Itália de seus dias. Aqui talvez Lars Von Trier queira falar apenas de nossos tempos de decadência e indecência. O que ele até tenha razão, só que acredito que ele não chegou ao âmago da questão.

* Este texto foi escrito ao som de: What are you going to do with your life? (Echo & The Bunnymen – 1999) 

Echo 5

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