2001: uma odisseia no espaço (1968)

Filme do diretor perfeccionista é um divisor de águas no gênero ficção ciêntífica

Filme do diretor perfeccionista é um divisor de águas no gênero de ficção ciêntífica

Se você viu recentemente filmes como Ela, de Spike Jonze, e Gravidade, do mexicano Alfonso Cuarón, respectivamente ganhadores do Oscar de Melhor Roteiro Original e Melhor Diretor, então deve ter notado que as duas obras devem muito ao clássico do gênero, 2001: uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick. Aliás, dentro da cosmologia cinematográfica, as produções de ficção científica são divididas antes e depois dessa obra-prima do diretor que, assim como poucos, soube flertar com todos os gêneros nas telonas. Aqui, ele meio que inventou a fórmula de filmar no espaço, com um cenário perturbadoramente clean e silencioso.

Baseado em conto de Arthur C. Clark, o filme de 1968 – uma época que os efeitos especiais ainda eram uma criança em aprendizado – é complexo em sua simplicidade narrativa, suscitando questões filosóficas, existencialistas e humanistas. Mais do que isso, questiona um velho conceito que parece ser um dilema entre os seres humanos da era moderna, ou seja, o debate eminente entre máquina x homem. “A força em 2001 está em confrontar nossa civilização com outra preservando o mistério desse encontro”, escreve o crítico e ensaísta francês, Michel Ciment, no livro Conversas com Kubrick, trabalho recentemente reeditado pela editora Cosac & Naify.

Na verdade, há vários mundos em choque na trama que parece ter sido urdida para suscitar mais 2001 2perguntas do que respostas. Eu mesmo não sei se entendi o filme até hoje por completo depois de tê-lo assistido pelo menos umas cinco vezes. Na primeira vez foi uma agonia do início ao fim. Depois de inúmeras leituras sobre o trabalho e o tema, fui assimilando as ideias, mas elas ainda não se encaixaram perfeitamente em minha cabeça.

Do ponto de vista técnico, 2001: uma odisseia no espaço é um colosso de excelência, daí o mérito do perfeccionismo doentio do diretor que passou um bom tempo pesquisando sobre como colocar essa explosão imagética nas telas. Deu certo. Visualmente a fita é de uma beleza ofuscante, deleite esse que se esvaiu em mais de 50% fora das telonas de cinema. Outro elemento positivo do filme é o caráter premonitório do enredo que se passa muitos anos da época em que foi realizado. Para começar, o filme entrou e cartaz apenas um ano antes de o homem pisar na Lua. Fora isso tem a questão da supremacia e dependência do homem com relação à tecnologia, o que hoje é quase um processo fisiológico.

Mas o que mais impressiona e fascina na história é a figura do robô Hal 9000 que, num rompante de ousadia e olhar visionário de Kubrick, lhe delega o protagonismo da trama. Detalhe esse, diga-se de passagem, que seria muito copiado no futuro, como mostra os cineastas James Cameron e até mesmo Steven Spielberg, um admirador confesso que chegou a filmar um roteiro póstumo deixado por Kubrick, Inteligência Artificial.

Auto-suficiente, onipresente e, insuportavelmente, simpático, esse sistema operacional altamente poderoso quase rouba a atenção e comiseração do espectador que, por um momento, parece acreditar que ele tem vida própria e até sentimentos. O que, num futuro próximo, bem próximo, isso não será, para o bem ou para o mal, difícil de acontecer.

* Este texto foi escrito ao som de: Faust (1971)

Faust

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