Os excêntricos Tenenbaums (2001)

Um filme estranho sobre uma família desajustada tentando juntar do que sobrou dos cacos

Um filme estranho sobre uma família desajustada tentando juntar do que sobrou dos cacos

Se o filme Os excêntricos Tenenbaums não é o mais estranho que já vi, com certeza é o mais original de todos, tanto que recebeu uma indicação de Melhor Roteiro Original. Gozado que revi o filme outro dia no Telecine Cult só por causa da cantora alemã de voz aveludada Nico, que tem duas músicas do seu sensacional disco solo de 1967, Chelsea girl, na fita. A Nico você conhece, certo? A cantora deliciosa que gravou o primeiro disco do Velvet Underground, aquele da banana.

Enfim, a trama, como o título denuncia, gira em torno dos Tenenbaums, uma família de notáveis excêntricos formada por Royal (Gene Hackman) e a esposa Ethel (Anjelica Huston), pais dos excepcionais Chas (Ben Stiller), Margot (Gwyneth Paltrow) e Richie (Luke Wilson). O primeiro um gênio das finanças, o último um tenista de talento e a jovem Margot, adotiva, brilhante escritora e dramaturga.

Só que, 22 anos depois, os dias de glória e orgulho da família são apenas poeiras do passado. Isso porque o patriarca desleixado e egoísta Royal, foi embora e agora retorna com a esperança de reatar os laços que os unia. A missão não será nada fácil. Para começo de conversa, a esposa está prestes a se casar com o seu antigo contador, o disciplinado Mr. Sherman (Danny Glover). Fora isso, o único filho que o apóia e não o odeia é o depressivo Richie, que nutre uma paixão platônica pela irmã adotiva. O restante da família o rejeita mesmo quando ele usa como estratagema um câncer de mentira como desculpa para voltar para casa. “Sou um canalha, esse é o meu estilo”, admite Royal, com a cara mais deslavada do mundo.

TenenbaumsNarrado por Alec Baldwin e com roteiro do próprio diretor Wes Anderson, escrito junto com o ator Owen Wilson – que interpreta o viciado e melhor amigo de Richie Eli Cash -, o filme é uma comédia do absurdo narrado em tom de fábula tendo como mote, o perdão. Questão materializada aqui a partir do acerto de contas do velho Royal com sua família. Uma questão, diga-se de passagem, demonstrada de diversas maneiras e sob várias camadas no filme, com direito a suicídio, incesto e outros tipos de bizarrices embutidos nas entrelinhas.

O elenco estelar está afiadíssimo e é uma das grandes atrações do filme. Vale à pena, por exemplo, se deleitar com a construção dos personagens da linda Gwyneth – uma artista fria e indiferente à dor alheia -, ou com o formidável veterano Gene Hackman, soberbo na pele de um velho irresponsável, mas de coração de ouro. A sequencia em que ele apronta todas com os netos, outrora negligenciados, pelas ruas da cidade, é de morrer de rir. “Ele não pode criar esses meninos com medo da vida. É preciso injetar alguma imprudência neles”, condena de forma imprudente a forma como os netos são criados pelo paranóico Chas.

Mas o que Os excêntricos Tenenbaums é, senão uma caixa cheia de surpresas agradáveis. Uma delas é os exagerados e coloridos figurinos e cenários, além da já mencionada trilha sonora que é um sundae para os ouvidos e mente. Aliás, Wes Anderson é um jovem diretor que sabe trabalhar com dignidade a música em seus filmes, basta conferir A vida marinha com Steve Zissou (2004), Viagem a Darjeeling (2007) e o recente Moonrise Kingdon (2012), todos estranhamente formidáveis.

Não sei por que cargas d’águas, ao ver o filme, eu acabei me lembrando do livro O menino do dedo verde, fábula infantil que marcou minha infância escrita pelo francês Maurice Druon. O universo mágico da cultura tem dessas coisas.

* Este texto foi escrito ao som de: Self portrait (Bob Dylan – 1970)

Self portrait - Bob dylan

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