O jornalismo romântico morreu

A promiscuidade entre a imprensa e o poder vem de tempos antigos

Chatô e Getúlio Vargas: A promiscuidade entre a imprensa e o poder vem de tempos antigos

Sou gago, fanho e tenho a língua presa. E quando fico nervoso, minha dicção piora bastante. De modo que, quando entrei para a faculdade de jornalismo, nunca pensei que seria um William Bonner na vida. Nem uma Fátima Bernardes. Na verdade, não foi por causa deles que pensei em fazer jornalismo, mas influenciado por figuras ilustres do passado que eu não tive oportunidade de ver como o Paulo Francis e o Samuel Wainer. Para falar a verdade, o Paulo Francis eu ainda tive a chance de pegar seus últimos anos de atividade e foi um aprendizado.

E quando sai da Faculdade com o diploma debaixo do braço, pronto para trabalhar numa redação de jornal, eu tinha o sonho infantil de querer mudar o mundo com uma profissão que achava romântica e cheia de glamour. Sim, porque na minha cabeça de recém formado ingênuo, o jornalista era o justiceiro moral da sociedade. Aquele camarada que ia atrás da informação que ninguém tinha e botava a boca no trombone. Ou que fazia denúncias hediondas arrebatadoras, sem medo de arcar com as conseqüências. Enfim, para mim, o ingênuo, o jornalista era o restaurador dos bons costumes e da mora, o salvador da pátria.

Ledo engano. O romantismo nos meus primeiros dias de jornalismo nunca existiu e o que vigora hoje é um glamour de quitanda onde, jornalistas peruas e omissos, se vendem e prostituem diante daqueles que pagam mais, podendo ser esse o governo ou representantes de uma iniciativa privada corrupta. Às vezes as duas coisas juntas.

E porque isso acontece? Ora pelotas, porque não é de hoje que o jornalismo e a mentalidade Samuel Wainermercantilista andam de mãos dadas. É só ler Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais, para ver que a promiscuidade entre imprensa e poder é antiga. Que o jornalismo romântico morreu antes deu nascer.

E porque cada vez mais os donos de jornais são empresários gananciosos insensíveis aos problemas da sociedade, interessados apenas em engordar suas contas bancárias à custa de parcerias escusas, sujas, como já disse, com a banda podre do governo, o lado promíscuo da iniciativa privada. Ou seja, fazem uso desavergonhado dos meios de comunicação para favorecer a interesses próprios patrocinados com o dinheiro que nós pagamos de impostos. Por dentro da engrenagem só há podridão. E conheço os dois lados da moeda. Jornal hoje é sinônimo de cartel.

O bom jornalista é aquele que não se vende ao sistema. O bom jornalista é aquele profissional que não se omite diante das coisas erradas que vê acontecer, ficando indiferente ou em silêncio à situação com medo de ser demitido ou rechaçado, enfim, sem receber seus proventos gordos “cala-boca”. E esse jornalista não existe mais. É espécie rara.

E é nessas horas que tenho vergonha da profissão que escolhi, fico com vontade de largar tudo e vender pastel na rodoviária. Garanto que é um trabalho mais digno do que ser porta voz de um governo corrupto ou dos donos do poder. Pensando bem, para quê diploma de jornalismo se no final tudo vai dar em nada.

* Este texto foi escrito ao som de: Aladdin Sane (David Bowie – 1973)

Aladdin Sane

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