Spartacus (1960)

Stanley em plena batalha dirigindo os atores Woody Strode e Kirk Douglas

Stanley em plena batalha dirigindo os atores Woody Strode e Kirk Douglas

A Semana Santa está chegando aí e a pergunta que faço à queima roupa é: qual o maior épico bíblico de todos os tempos? Para mim o imbatível Ben-Hur, com Charlton Heston no papel-título e William Wyler na direção. Mas há outros do gênero de peso. Spartacus, de 1960, dirigido por Stanley Kubrick é um deles. Baseado em romance de Howard Fast lançado em 1951, o filme era um projeto do ator Kirk Douglas, então produtor executivo da fita e estrela nas telas como o escravo rebelde que lidera uma revolta de seus pares contra Roma.

Só que no meio do caminho o astro com inconfundível furinho no queixo se desentendeu com o diretor Anthony Mann e, na hora de encontrar um substituto, lembrou na hora da parceria elogiada e bem sucedida com Kubrick no contundente Glória feita de sangue. O resultado é um trabalho marcado pela eficiência narrativa, exuberância visual e atuações inesquecíveis de um elenco formidável. Sim, porque além de Kirk Douglas, a trama contou com os préstimos de Laurence Olivier, Jean Simmons, Tony Curtis, o soberbo Charles Laughton e o hilário Peter Ustinov, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante.

Grande homem da renascença que era, Kubrick, apesar da pouca idade que tinha na época, conseguiu um feito raro no meio em que transitava que foi dirigir uma história como superespetáculo e ainda dar ordens para um cast de fazer tremer o mais experiente dos cineastas. Para o jornalista e escritor Ruy Castro, o pior não era nem isso, mas o fato de, além de muito jovem, ele ser tão nova-iorquino e tão anti-establishment. No final deu tudo certo, apesar do conflito com o roteirista Dalton Trumbo, um homem de esquerda que, segundo Kubrick, imbecilizou o texto original.

Spartacus“Em Spartacus, tentei tornar a história o mais autêntica possível. Eu tinha que lutar, principalmente, contra um roteiro bobo”, lembraria anos depois.

Depois de ser comprado por um mercador contrabandista que transforma escravos robustos em gladiadores, Spartacus chega à arena com a missão de lutar pela vida numa batalha clímax dirigida com tensão ímpar pelo diretor. Preste atenção em como Kubrick brinca e ludibria o voyeurismo do público dramatizando os últimos momentos dos gladiadores em cena.

No meio da confusão armada por um grupo de romanos lascivos e imorais, eis que surge uma rebelião e os gladiadores fogem formando um exército de escravos que luta, entre outras coisas, por ideais libertários, talvez o grande mote do filme. “A morte é a única liberdade que o escravo conhece”, observa Spartacus, com olhar sonhador.

Após uma sequência de vitórias contra os romanos, e tentativa frustrada de fugir da Itália pelo mar, com seus homens, Spartacus finalmente é capturado e morto, sua lenda sufocada pelos opositores. O conflito latente entre o poder civil e militar o tempo ronda a trama não apenas por conta das acaloradas discussões dos afetados homens do Senado romano, mas na disputa pelo comando do então mais poderoso exército da Antiguidade.

“Notou que os piores tiranos são magérrimos?”, ironiza com deliciosa cara de pau o personagem de Charles Laughton, que, apesar do cinismo, é capaz de um nobre gesto de humanismo antes de tirar a própria vida. No melhor estilo Stanley Kubrick, claro.

* Este texto foi escrito ao som de: Living in the material world (George Harrison – 1973)

Living in the material world

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s