A última tentação de Cristo (1988)

O figurino de Pôncio Pilatos usado por David Bowie no filme é uma das atrações da exposição em SP

O figurino de Pôncio Pilatos usado por David Bowie no filme é uma das atrações da exposição em SP

Afinal de contas, porque diabos eu resolvi tirar do limbo esse filme do Scorsese que não via há séculos? Ah, sim, lembrei, lembrei! Foi porque outro dia, de bobeira em casa, assisti uma matéria, não sei onde, falando sobre a exposição do Camaleão do rock que está rolando em São Paulo. Aliás, tenho que dar um jeito de ir lá. Instrumentos, cadernos com anotações, fotos e imagens raras, os exóticos figurinos usados pelo artista em suas apresentações e, claro, aqueles que ele vestiu nas dezenas de filmes que trabalhou. Entre eles, A última tentação de Cristo, na pele do tirano romano Pôncio Pilatos.

Para falar a verdade, nem me lembrava que o David Bowie havia feito esse filme. Aliás, não me lembrava de muita coisa. Inclusive que o Martin Scorsese era o diretor. Mas também pudera. Tem muito tempo que vi esse filme, acho que a última vez que assisti eu ainda era coroinha e acreditava em deus, inferno, salvação da alma e todas essas bobagens.

Talvez seja por isso que nem dei pelota para a história. Sendo sincero, domesticado em ver aqueles épicos do Cecil B. DeMille, com um Jesus hollywoodiano de olhos azuis e bonito como o Gary Cooper, odiei A última tentação de Cristo com todas as minhas forças.

Agora não. Agora que virei um autêntico, confesso e orgulhoso pecador, um incrédulo rebelde, eu achei o filme sensacional, formidável, maravilhoso. E por vários motivos. Um deles por causa da ousadia de Martin Scorsese, um ítalo-americano que desafiou dogmas familiares e a própria formação católica a levar para as telas o polêmico romance do escritor grego Nikos kazantzakis. O nome é feio e impronunciável, mas você com certeza já viu, pelo menos uma vez, outro texto do autor adaptado para o cinema, o clássico, Zorba, o grego.A última tentação de Cristo

 Escrito em 1951, o livro conta a história de um Jesus anárquico cheio de dúvidas e temor, inclusive diante de seus atos e da missão que lhe deram. Na visão questionadora de Kazantzakis, Cristo não era uma divindade acima do bem e do mal, alguém que desceria numa nuvem cercado de anjos para acabar com os problemas da humanidade. Era um homem simples da Galiléia perdido entre o dom da liderança e as tentações do desejo, daí o título mais do que elucidativo. É esse messias que Martin Scorsese nos apresenta aqui.

“Tenho muito medo dentro de mim”, diz o personagem interpretado por um visceral Daniel Defoe.

Nem precisa dizer o que a Igreja Católica achou dessa adaptação que chegou a ser proibido em vários países, inclusive no Brasil. E só porque Jesus queria comer Maria Madalena. E o que tem, ora bolas? Paciência. Nessa segunda leitura de A última tentação de Cristo me impressionei com o escopo pop do filme que, além de trazer David Bowie como ator, conta com Peter Gabriel como o autor de trilha sonora empolgante e do cineasta junkie Paul Schrader (O gigolô americano).

Todas as passagens importantes da vida de Cristo estão lá. Mas Martin Scorsese não se deixou guiar por convencionalismos do passado e nos brinda com uma narrativa cheia de maneirismos. A cena do exorcismo no deserto, por exemplo, parece um clipe de Jesus Cristo Superstar e os milagres que o “Salvador” realiza um número de mágica. Cabelo pintado de vermelho fogo e duas vezes com mais ódio no coração do que o Judas da Bíblia, Harvey Keitel está um espetáculo como o antagonista da trama. Aqui sim, o diabo é feio como pintam.

* Este texto foi escrito ao som de: Ziggy Stardust (David Bowie – 1972)

Ziggy Stardust

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