Beck’s back – Morning phase (2014)

Com seu rosto de menino, aos 43 anos, Beck é um dos poucos artistas da atualidade que ainda consegue me emocionar

Rosto de menino, aos 43 anos, Beck é um dos poucos artistas de hoje que ainda consegue me emocionar

Essa história já é conhecida por quem me acompanha aqui. Tempos atrás me apaixonei por uma bruxa sádica que devassou minha alma sem piedade com sua soberba assassina. Resultado, eu quis desaparecer, sumir do mapa me afogando no bidê de casa, pulando do meio-fio. Na falta de coragem ou coisa melhor para fazer, busquei um analista, mas o cara não foi tão bom quanto aquele que tratou do Leonard Cohen, em 1968, então meu amigo Tiago Super 8 me receitou como salvação Sea change, do Beck. Funcionou porque esse disco de uma melancolia perturbadora, por incrível que pareça me tirou do buraco. A catarse emocional foi tão grande que do delírio da cura descobri que a dor às vezes pode ser rosa.

Por essas e outras que Beck é meu herói. E pensar que quando o ouvi pela primeira vez via MTV, com o impactante Odelay, nem imaginei que um dia ele fosse virar meu anjo da guarda do amor não correspondido, seja lá o diabo isso signifique. Pois Beck’s back. Depois de cinco anos sem gravar, o cara está de volta com o incrivelmente tocante Morning phase, oficialmente nas prateleiras das melhores lojas do ramo a partir do próximo dia 25. A capa, sutilmente psicodélica, dá sinais da singela sinfonia de “folk pop” que é o álbum.

A comparação com Sea chance é inevitável. Eu diria que os dois registros são irmãos gêmeos, mas com personalidades diferentes. E eu, que tenho um irmão gêmeo, sei muito bem do que estou falando. Ou seja, são parecidos e não são ao mesmo tempo. E quer saber? Se for para copiar de alguém ou se repetir, que seja de si mesmo. Morning, por exemplo, segunda faixa desse novo Capital Beckálbum parece ter saído da costela de The golden age, canção que abre o pungente Sea change.

No geral, para mim, nessa primeira audição “all day”, Morning phase me pareceu ser um trabalho mais solar, com sua alegria minimalista contagiante e ainda não sei se, do ponto de vista sentimental, isso é bom ou ruim. O clima campestre de algumas canções nos remete, assim, bem de leve, a muita coisa. Há estilhaços sonoros de Bob Dylan da fase Desire e Blood on the tracks em Country down e em outras coisas do disco. Mas também reflexos de Byrds e alguma coisa de qualquer um do trio Crosby, Stills & Nash na fase solo.

Gosto, particularmente, da simplicidade sofisticada com que Beck produz algumas canções. Em Heart is a drum o equilíbrio entre um baixo constante e teclado altruísta faz nosso coração palpitar de fato, num constante redemoinho. “Livre como uma roda motriz/Circulando em volta de seu desejo de aço/Veja somente o que você sente/Mantenha esse sentimento ao redor quando você ainda estiver de pé”, canta o artista.

Já os versos que abrem o pop gostoso Blue moon parecem ter sido escritos para mim. “Estou tão cansado de estar sozinho/Estas paredes penitentes são tudo o que conheço”, diz. O clima é de despojamento da faixa, com aquele falsete alto astral, me lembra os meninos do Coldplay dessa fase mais “feliz” da banda britânica.

Enfim, com 43 anos, rostinho ainda de menino, mas amadurecido como músico e compositor, Beck é um dos poucos artistas da atualidade que ainda consegue me emocionar.

* Este texto foi escrito ao som de: Morning phase (Beck – 2014)

Morning phase

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