Glória feita de sangue (1958)

Na pele do imponente general Dax, Kirk Douglas dá um show de atuação e conquista o diretor

Na pele do imponente general Dax, Kirk Douglas dá um show de atuação e conquista o diretor

Baseado em romance de Humphrey Cobb, Glória feita de sangue foi o primeiro grande filme de Stanley Kubrick e um dos raros de sua filmografia a ser recebido com simpatia pela crítica especializada, quase que em sua unanimemente. Muito desse mérito encontra respaldo na premissa antibelicista da trama que, turbinada pela conhecida ironia do cineasta, tem força humanista incômoda.

Em guerra desde 1916, depois de dois anos de conflitos tonitruantes com várias baixas dos dois lados, França e a Alemanha esbarram num impasse territorial: a conquista de ponto estratégico apelidado de “o formigueiro”. O lugar está de posse dos germânicos e o alto comando francês arquiteta um plano suicida para tomar a região sob o comando do coronel Dax (Kirk Douglas). Desde o início ele reluta em cumprir a missão, mas coloca a missão kamikaze em ação subordinado às ordens hierárquicas.

“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, chega a desafiar seu superior citando a famosa frase do pensador britânico Samuel Johnson.

Acontece que tudo dá errado na empreitada já que, cansados, abatidos e com a moral em frangalhos, resultados de batalhas antecedentes, alguns soldados não dão o máximo de si, recuando, literalmente, com o rabo entre as pernas. Irado e possesso com o resultado da investida, o intolerante e insensível general Mireau (George Macready) ordena que atirem contra seus próprios soldados.Glória feita de sangue 2

“Se não enfrentaram os alemães, vão se ver com os franceses”, diz indignado.

Em defesa de seus homens, Dax repudia, terminantemente, a postura de seu superior, travando com este, ríspido confronto durante corte marcial que condena para exemplar, três homens de cada um dos pelotões, para serem fuzilados como covardes. Eis aí o grande mote do filme que critica e questiona atos injustos, tiranos e sádicos de homens no poder, ou pior, poder em demasia em mãos equivocadas, fazendo com que chegamos à conclusão de que a raça humana não é apenas passiva de pena, mas, sobretudo, de asco.

A meticulosidade visual com que Kubrick conduz algumas cenas é de um deleite ímpar, como mostra sinuosa sequência em que uma câmera passeia soberana pelas trincheiras, mas sobressai tanto a batalha física, quanto moral no front. O diálogo dos soldados nas casernas externando o medo diante da morte, horas antes de enfrentar o perigo é comicamente trágica. “Não tenho medo de morrer. Só de ser morto”, chega a dizer um deles, de forma infantil.

Imponente, convincente e emocionante, Kirk Douglas dá um show de interpretação e entrega em cena, o que justifica o fato de Kubrick topar, mesmo a contragosto, dirigir seu próximo filme. Mas daí é outra história.

Ah, sim, a cantora alemã humilhada no último minuto da fita é Suzanna Christian, então recém esposa do diretor, que nunca mais voltaria atuar novamente, dedicando seu tempo à casa, os filhos e como assessora de luxo do marido em seus projetos futuros.

* Este texto foi escrito ao som de: The Velvet Underground (1969)

Velvet Underground

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