Joanna Francesa (1973)

A atriz francesa Jeanne Moreau é a estrela do filme de Cacá Diegues, Cacá Diegues

A atriz francesa Jeanne Moreau é a estrela do filme de Cacá Diegues, Cacá Diegues

Juro, de coração. Pensei que nunca fosse ver Joanna Francesa, um dos filmes mais fantásticos de Cacá Diegues. E também o mais obscuro e sombrio. Isso porque algumas obras-primas do cinema brasileiro não foram, sabe-se lá porque, resgatadas do esquecimento burro que a política cultural desse país às renegaram. Todos os filmes do cineasta já deveriam ter sido remasterizados, digitalizados e disponibilizados em DVD, Blue Ray, enfim, nessas mídias “mudernas” que têm por aí.

Mas graças ao Canal Brasil, eu pude ter a chance de ver esse trabalho de peso outro dia na mostra que o homenageia na vitrine televisiva mais importante do cinema brasileiro. Joanna Francesa é mítico em meu inconsciente por ser protagonizado pela elegante Jeanne Moreau, uma das atrizes símbolo da nouvelle vague. Aqui ela é Jeanne, proprietária de um bordel de luxo em São Paulo que decide largar tudo por uma vida de rainha de Sabá numa fazenda épica no interior de Alagoas. A cidade, localizada no fim do mundo, se chama Santa Rita das Alagoas e faz parte das memórias afetivas de Cacá Diegues, um alagoano de origem radicado há anos na Cidade Maravilhosa.

Lá ela chega como intrusa, ainda assistindo a moribunda esposa de seu amante, o poderoso coronel Aureliano (Carlos Kroeber), nas últimas. O velho, cheio de filhos bastardos pela casa e os legítimos incestuosos, está contando os dias para que sua mulher vá embora logo. Não demora muito é traída se vai.

Joanna Francesa 2Mas os imbróglios domésticos que o cercam não são os únicos problemas que ele tem que lidar. O forte embate político que domina a região e a grande plantação de canavieira de sua fazenda que corre o risco de se perder, por conta da modernização dos arcaicos moinhos, são temas periféricos contundentes. “A máquina dos moinhos tem um apetite dos diabos”, amarga, sem conter a inveja e o rancor do progresso dos vizinhos inimigos.

Meio que um cruzamento da literatura de José Lins do Rego e da herança política do Cinema Novo, Joanna Francesa, cuja produção é uma parceria Brasil e França, é um trabalho atípico na carreira de Cacá Diegues. Surpreende pelo pessimismo temático e pela áurea seca, ríspida da narrativa, com todos se odiando, tolerando e convivendo. “Sabe como o pessoal da vila te chama? ‘Joana’ Francesa, a cadela que o coronel trouxe de São Paulo”, diz um dos filhos de Aureliano, que não sabe se odeia ou se deseja essa francesa fogosa e autoritária.

Aliás, incrível como essa mulher mundana da cidade grande que ela era, se adapta bem à aspereza do sertão e, colocando suas asas de víbora dominadora de fora, tomando com naturalidade, conta do lugar. A ponto de ofuscar o autoritarismo do amante cada vez mais perdido em seus dramas interiores e familiares. “Estou aqui, vou ficar. Não sei por quanto tempo”, diz ela enigmática.

Nos bastidores do filme, algumas surpresas agradabilíssimas, como a presença do estilista francês Pierre Cardin, não apenas assinando os figurinos rústicos da diva Jeanne Moreau, mas fazendo ponta no filme como seu amante apaixonado. A trilha sonora assinada por Fagner, participação especial de Nara Leão e comdireção de Chico Buarque, que assina a faixa tema, é um sundae. Sabe de uma coisa? Depois de ver esse filme me deu vontade de ler José Lins do Rego. Vou perambular por alguns sebos daí.

* Este texto foi escrito ao som de: Manera fru fru, manera (Fagner – 1973)

Manera fru fru

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