A trapaça (2013)

Figurinos exagerados, trilha sonora maneira e enredo de Tarantino dirigido por Scorsese

Figurinos exagerados, trilha sonora maneira e enredo de Tarantino dirigido por Scorsese

Se você viu Alcatraz, então com certeza se lembrará de uma cena exemplar. É quando, no mítico presídio de segurança máxima, um negão sessentão está sentado no topo de uma escadaria – com outros de sua raça, degraus abaixo -, e chama o personagem de Clint Eastwood para uma conversa. Em tom professoral, ele explica ao convidado que todos ali estão brincando de leão da montanha. Ou seja, quanto mais alto se está, maior o prestígio e o poder entre os seus pares.

Essa situação confortável de o “rei da selva” é vivida no momento pelo cineasta David O. Russell. E ele a conquistou depois de emplacar dois filmes de sucesso na Meca do cinema. Primeiro o drama pungente, O vencedor (2010),e  na sequencia a comédia dramática O lado bom da vida (2011). Agora com o divertido A trapaça (American Hustle – 2013), volta a repetir a dose abiscoitando 10 indicações ao Oscar, inclusive de melhor filme e diretor. O formidável elenco saiu com as quatro indicações referentes, ou seja, melhor ator (Christian Bale), melhor atriz (Amy Adams), melhor ator coadjuvante (Bradley Cooper) e melhor atriz coadjuvante (Jennifer Lawrence).

Todos merecidos. Na trama baseada em fatos reais, sobre uma operação do FBI que, entre o final dos anos 70 e começo dos anos 80, desarticulou uma organização criminosa que envolvia políticos corruptos, mafiosos e empresários gananciosos, nem tudo é o que aparenta ser. Ou pior, tudo é do jeito que você está vendo, mas se custa acreditar. A impressão que se tem é que estamos diante de um roteiro de Quentin Tarantino filmado por Martin Scorsese.

“As pessoas acreditam no que quer”, diz os personagens do filme entre si, numa fala que bem American Hustler 2poderia ser dita diretamente para o espectador.

Com o gene da pilantragem engendrado até a medula, o casal Irving Rosenfeld (Bale) e Sydney Prosser (Amy), foram feitos um para o outro quando o assunto é passar a perna em alguém. “As pessoas sempre enganam as outras para conseguir o que quer”, ensinam. Eles se conheceram embalados ao som de Duke Ellington, Jeep’s blues é a trilha sonora dos dois.

Quando a relação finalmente se solidifica, eles bolam um escandaloso esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a máfia norte-americana e o alto escalão do governo de New Jersey. O circo de câmeras e negociatas escusas armado pelo departamento de investigação, tendo como o ambicioso Richie DiMasio (Cooper) à frente, é de fazer inveja Durval Barbosa e sua trupe pega na Operação Pandora.

Até dá para prever o desfecho de todo esse clima de gato e rato que circunda a trama, mas o gostoso mesmo é a forma com que David O. Russell nos apresenta a coisa. Narrado e montado em ritmo de jazz, com figurinos propositalmente exagerados e trilha sonora contagiante, recheada de hits da época e, claro, muito jazz, o filme lembra uma daquelas séries norte-americanas dos anos 70, mas é só mais um bom filme contado por um bom diretor.

E claro, tem Robert De Niro encarnando um autêntico mafioso sendo enganado por um sheik de araque numa das melhores partes do filme. Por ir assistir que é, na pior das hipóteses, garantia de boa diversão, cinema da melhor qualidade.

* Este texto foi escrito ao som de: American Hustle – Soundtrack (2013)

American Hustle 3

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