A morte passou por perto (1955)

Acuado, Mac se esconde num depósito de manequins e faz confundir com bonecos

Acuado, Mac se esconde num depósito de manequins e se faz confundir com bonecos

Para o genial cineasta Stanley Kubrick e para muitos críticos, essa pérola do cinema noir é recebida oficialmente como seu primeiro filme. Do ponto de vista de cinema, a fita com certeza está degraus acima do projeto seminal, Fear and desire, mas o diretor ainda carecia de amadurecimento na construção do enredo.

Aqui ele conta em flashback dois turbulentos dias na vida de Mac (Jamie Smith), um boxeador em franca decadência que um dia vê, da janela de seu apartamento, uma jovem ser violentada por um homem mais velho. Ela é Gloria (Irene Kane), uma jovem que perdeu pai, mãe e irmã em situação trágica e agora tenta reconstruir sua vida dos escombros. Essa é a história que ela conta ao seu vizinho herói quando ele chega para salvá-la, não a tempo de dá uns tabefes no amante violento.

A afinidade entre os dois é fulminante e logo eles decidem deixar Nova York para trás e viver uma nova jornada no campo. No meio do caminho, Mac é acusado de um crime que não cometeu e Gloria sequestrada pelo gigolô ciumento. O desfecho de toda essa confusão de interesses vilipendiados, desejos interrompidos e planos negligenciados é decepcionante, no mínimo anti-Kubrick.

De qualquer forma, o filme traz mais acertos do que erros e revela um Kubrick mais confiante e Killers Kissdado a ousadias técnicas. E olha que estamos falando de seu segundo filme. Logo no começo as pesadas câmeras da época se posicionam de forma desconcertante, nos rostos dos pugilistas que se digladiando no ringue. Noutra sequência bem próxima, somos convidados a entrar no turbulento pesadelo de Mac, um sujeito desajustado que se mete numa fria maior ainda daquela que se encontra. A narrativa cheia de surpresas é construída por meio de um flashback dentro do outro e aos poucos, vamos se inteirando no drama desses dois desajustados amantes.

“É um erro confundir pena com amor”, diz a jovem um tanto quanto sórdida, desconfiado das boas intenções do mocinho que, apesar do tamanho, se mostra ingênuo e, porque não, um tanto quanto frágil. E qual o problema se os brutos também amam? Sim, porque vocês sabem, por amor somos capazes de nos meter nas maiores roubadas.

A cena final pode ser decepcionante, mas ao longo do filme Kubrick não abandona o espectador, lhe reservando adoráveis surpresas. Uma delas é a agitada cena final da perseguição embalada por uma trilha nervosa e tensa, cheia de suspense. Nenhum detalhe dessa fuga ensandecida de rato e gato passa despercebida às câmeras de Kubrick, instaladas em pontos estratégicos na selva de pedra nova-iorquina. Daí, encurralados num depósito de manequins, o mocinho em apuros e o vilão sedento de vingança são meros fantoches experimentais para o sutil, mas elegante jogo visual criado pelo diretor.

Para todos os defeitos, A morte passou por perto é um autêntico representante do cinema noir e um pequeno extrato do exuberante estilo desenvolvido pelo perfeccionista cineasta.

* Este texto foi escrito ao som de: Brubeck time (Dave Brubeck – 1955)

Dave Brubeck

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