Álbum de família (2013)

A força do filme está nos diálogos que entram em cena como farpas de espinhos

A força do filme está nos diálogos que entram em cena como farpas de espinhos

Em Gata em teto de zinco quente, texto do dramaturgo Tennesse Williams adaptado para o cinema por Richard Brooks, em 1958, Elizabeth Taylor é Maggie Pollitt, uma esposa bela e dedicada casada com Brick (Paul Newman). Ele é um ex-jogador de futebol fracassado que, afoga as mágoas de uma vida que poderia ter sido, em hectolitros de álcool. A culpa pelo seu desterro moral ele joga na cara da mulher e do pai (Burl Ives), este um velho com câncer, orgulhoso o bastante para não precisar, nem se desculpar do filho por alguma coisa que aconteceu entre eles no passado. Todos aqui fazem parte de uma família que não deu certo.

Peça de Tracy Letts vencedora do prêmio Pulitzer adaptada para os cinemas por John Wells, em algum lugar do passado e do presente a cáustica e incômoda história de Álbum de família, esbarra nesse clássico do cinema. Isso porque, assim como os personagens de Gata em teto de zinco quente, os Weston é uma família que não deu certo. E sabemos disso logo na cena de abertura do filme, que traz um envelhecido Sam Shepard, explicando que ele e sua mulher têm um pacto registrado num dos parágrafos do contrato matrimonial.

“Eu me encarrego do copo e ela se enche de pílulas”, entrega sem o menor pudor. Ele bebe para aplacar seu fracasso como escritor de um livro apenas. Ela, Violet (Meryl Streep), para amenizar as dores de um câncer de boca que, por ironia do destino, a deixou sem papas na língua.

OssageAlguns frames depois ele resolve abandonar o lar e da tragédia que se sucede desse gesto apatetado resulta num reencontro de todos num clima de álbum de família. Só que sem clima de nostalgia e felicidades coletivas de um autêntico almoço de domingo. Dos escombros do que um dia foi um grupo unido – ou pelos menos de um grupo que fingia ser unido – só restam culpas, ressentimentos e uma boa dose de maldades sinceras. A virulência verbal de Violet durante o jantar, na cena clímax do filme, é de meter medo.

Com estrutura sincera de uma peça de teatro filmada, Álbum de família – indicado a dois Oscars, Melhor atriz para Meryl Streep e Atriz Coadjuvante para Julia Roberts -, tem sua força nos diálogos que são de uma sinceridade pungente e eles jorram em cena como farpas de espinhos para todos os lados. Lembra o genial Joseph L. Mankiewicz em seus melhores momentos e, à medida que segredos do passado são desenterrados e confrontados com as desilusões desses desajustados membros da família, no presente, nós ficamos cada vez mais com vontade de afundar na poltrona.  Como diria o bom e velho Nelson Rodrigues:

“Toda família tem cavernas, pântanos que não convém desenterrar”.

Indicada pela 18ª vez ao Oscar de Melhor Atriz, Meryl Streep, 64 anos, chegou a rejeitar o papel dessa mãe infernal de amarga e rabugenta. Mas o destino e sua grande experiência como atriz que já lhe renderam três estatuetas, provaram que ela estava mais do que certa. A cena em que ela rola com Julia Roberts no chão é de matar de ri, mas o que temos vontade no fim é de chorar.

* Este texto foi escrito ao som de: Slowhand (Eric Clapton – 1977)

Slowhand

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