Diretores – Ingmar Bergman

O cineasta tinha uma pegada existencialista incômoda e obsessão pelo tema da morte

O cineasta tinha uma pegada existencialista incômoda e obsessão pelo tema da morte

O sueco Ingmar Bergman era, antes de tudo, um homem de teatro. Um homem de teatro e filósofo da alma que permeou sua monumental obra no cinema com um misto de medo metafísico e angústia existencialista. Difícil sair incólume da sessão de alguns de seus filmes. Woody Allen, quem entende do assunto, sabe muito bem do que estou falando, porque quando assistiu pela primeira vez Monika e o desejo (1952), numa sala escondida em Nova York, sua vida sofreria um baque.

E foi graças ao Woody Allen, à sua paixão por Ingmar Bergman que tive curiosidade de ver os filmes do diretor sueco. O primeiro que assisti não foi, a exemplo do cineasta nova-iorquino, Monika e o desejo, mas o seu trabalho mais emblemático e conhecido, O sétimo selo (1956). E admito que tive um medo metafísico desgraçado da morte de Bergman chacoalhando seus ossos. Até hoje, mais de não sei quantas vezes depois de assistir, a história do duelo existencial entre um cavaleiro medieval e a morte me dá calafrio.

O que espanta no texto de Bergman – e eu não sei se é por causa de sua origem, do lugar de onde ele veio, do ar gélido que o circundava -, é o olhar frio e cruel, em grande parte pessimista, que ele dedica à natureza humana. E para quem chegou a ler o livro de memórias que ele escreveu – Lanterna Mágica , nota que, muitas vezes, esse olhar era direcionado para um sujeito que se olhava diante do espelho. Isso porque Bergman era um artista angustiado com a vida. Um sentimento que refletiu de várias formas no cinema que fez. “Algumas vezes em minha vida brinquei com o pensamento de cometer suicídio”, disse certa vez.

Bem, para se manter vivo ele entregou-se de corpo e alma ao teatro e ao cinema. Sorte nossa!

Top FiveLanterna mágica

O sétimo selo (1956) – Para mim não é apenas o melhor filme de Bergman, mas um dos grandes do cinema. Na trama, um cavaleiro medieval luta pela sua sobrevivência num jogo de xadrez com a morte. O medo metafísico perambula a narrativa do começou ao fim, com lírica dança da Senhora foice. Max von Sydow está impecável.

Morangos silvestres (1957) – Numa vibe proustiana, o diretor aqui conduz o espectador num carrossel sentimental onde o onírico e a realidade, o passado e o presente, servem de combustíveis para a contundente reflexão sobre a dor da recordação, a perda de uma boa oportunidade na vida.

Luz de inverno (1962) – Um dos títulos que compõe a trilogia do silêncio, o filme flerta mais uma vez com o obsessivo tema da morte nesse que talvez seja um de seus filmes mais pessimistas. Realizado no auge da Guerra Fria, o ponto de partida é o medo de uma crise nuclear. O questionamento sobre a existência de um Deus e o papel da Igreja é colocado em xeques.

Gritos e sussurros (1973) – Claustrofóbico e intimista, é de longe um dos filmes mais perturbadores de Bergman, com mulheres-fantasmas digladiando de forma analítica sobre a dor da perda e a efemeridade da felicidade. Ibsen e Strindberg são influências.

Cenas de um casamento (1973) – Um Bergman despojado e mais corrosivo do que nunca vem à baila numa das melhores análises conjugais já realizadas para o cinema. Boa parte da fonte para as agruras do casal protagonista saiu de seu ninho de amor.

* Este texto foi escrito ao som de: Scott 4 (Scott Walker – 1969)

Scott 4

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