A menina sem alma

E por causa disso ela me deixou com a corda do coração frouxa, me sentindo ridículo...

E por causa disso ela me deixou com a corda do coração frouxa, me sentindo ridículo…

O estilo dela é francesinha, com pele branca lisa delicada e saliente batom vermelho saltando dos lábios. E por isso mesmo, qualquer verde esmeralda no detalhe da roupa, qualquer azul turquesa ou laranja Henry Miller, nos pormenores, lhe cai bem. E por falar em Henry Miller, se algum dia um escritor resolvesse escrever sobre ela, ou descrevê-la em seu jeito de ser, esse autor seria, num primeiro momento, o vienense Arthur Schnitzler. Não sei se porque a gente acabara de ver um espetáculo em que o famoso psicanalista Sigmund Freud era personagem. Ou porque ela parece ser enigmática como uma esfinge.

E ela é uma menina sem alma e que não parece zelar bem pelos sentimentos alheios. Não parece zelar e nem quer, mas ela não faz isso por mal, mas porque nem percebe. Ou faz de desentendida. Mesmo assim, ela continua sendo uma garota com estilo francês, toda charmosa com penteado clássico de coque que deixa rolar pelo canto da face, sensuais fios de cabelos.

Cabelos esses negros da cor da noite que não lembram os da mãe, embora o nariz de princesa da Disney a denuncie que tem tudo a ver. E ela diz que se parece mais com o pai, inclusive no gosto pelos pratos, pela cozinha. E ela entende e gosta de cozinha. O que faz dela uma garota estilo francesa apetitosa, deliciosa e suculenta. Eu queria devorá-la.

E ela é uma garota performática, atraente com seus tiques e trejeitos, sorriso expressivo. E tem Esfingevoz de mulher madura, apesar do jeito de menina do século 19. Um dia quero beijar sua boca, só para saber se seu beijo tem gosto de passado, tem gosto de saudade. E quem sabe ouvir dela a frase perdida pelos ares do Rio de Janeiro. “Queria um dia só viver com você para sempre”, sonhei com ela sussurrando isso em meus ouvidos.

Tudo bem, eu sou pessimista, mas acredito que todos nós temos almas cheias de buraquinhos que precisam ser preenchidos com impressões diversas. Podem ser elas um filme bacana ou uma canção de amor. Enfim, o sorriso mágico da garota amada, mesmo que ela esteja distante em sua bolha platônica, ou o crepúsculo agridoce de um dia de cão. Pode ser um livro interessante ou um poema falando sobre nossa dor de existir. Sei lá, quem sabe, talvez, a utopia dos desesperados.

E ela não acredita em almas, mas tudo bem porque eu não acredito em deus. E ela diz que sou otimista por acreditar em almas e eu digo que sou pessimista por não existir um deus. E ela parece tão cheia de si por não acreditar numa alma, enquanto que me sinto tão pequeno por não acreditar em um deus. E ela me fez sentir ridículo por acreditar numa alma.

Então a menina de estilo francês e jeito de esfinge foi embora me deixando com a pulga atrás da orelha, com a corda do meu coração frouxa. Amanhã será um novo dia e não sei se quero mais pensar em almas ou pelo menos ter uma.

Ela parece a menina de Jules Jim, mesmo não tendo alma.

* Este texto foi escrito ao som de: Mr. Fantasy (Traffic – 1967)

Traffic

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