Camélia no CCBB

Peça é baseada num estudo em que Freud fez com paciente lésbica

Peça é baseada num estudo em que Freud fez sobre paciente lésbica em 1918

Achei que fosse alguma coisa sobre A dama das Camélias, o clássico filme com a Greta Garbo dos anos 30, mas não é. E até agora ainda não entendi o porquê da relação da flor com a história de Sidonie Cislag, jovem homossexual que no início do século passado foi paciente de Sigmund Freud. Mas tudo bem. Na peça Camélia, em cartaz até o dia 16 fevereiro no CCBB, ela é Marguerethe Csonka, uma judia que vivenciou duas guerras mundiais – numa delas fugindo dos nazistas -, chegando a passar uma temporada no Brasil tempos depois.

Um incômodo para a família, Marguerethe foi levada pelo pai para ser tratada pelo então professor Freud. Isso em 1918. A esperança da família era de que ela pudesse “voltar à normalidade”, só que dois anos depois recebeu alta, sem o renomado psicanalista ter descoberto a verdadeira causa da doença de sua paciente. Ele não podia curá-la por ela amar outra mulher. Em 1920 Freud publicaria os estudos sobre esse então inusitado caso que agora o dramaturgo Ronaldo Ventura, vencedor da sexta edição do concurso dramaturgia Seleção Brasil em Cena,  nos apresenta. A direção é de Luana Proença.

Em cena, sete atores dão vida aos desejos conflituosos da personagem que se entregou a muitas mulheres, mas que só teve um grande amor na vida, alguém mais velha e casada. “Solidão é um estado de espírito, acredita a personagem”, que o tempo todo brinca com sua condição de homossexual. “Tudo é sem sentido. (…) Nossa natureza encontra-se no movimento. O inteiro repouso é a morte”, diz ela, transitando por mudanças e revoluções Senhoritas de uniformeconstantes ao longo de 100 anos de vida.

Jazz, blues, pop rock é a trilha sonora desses 10 séculos de vida. Billie Holliday, Aretha Franklin, ABBA, Frank Valli, Wagner, entre outros, todos eles cúmplices desse mosaico de descoberta e decepções. “O nome da minha pátria é paixão”, se desespera nossa heroína, dentro de um cenário simples, mas comunicativo com suas tragédias. “Lésbica é uma mulher refinada com predileção por uma pessoa do mesmo sexo”, ironiza em dado momento da trama que segue pelo relógio do tempo sem ter uma lógica linear.

Mas à medida que o tempo corre e se transforma, somos apresentados às estações do ano, à moda da época, ao som do momento. Está tudo lá, a barulheira esquizofrênica de Nova York, o clima de perversidade da Berlin dos tempos de Hitler, o sol abrasador das pradarias cariocas. É o tempo e o lugar interferindo na trajetória da personagem e seus amores.

De repente, o espectador é pego de surpresa com uma cena de beijo lésbico e outro e mais outro. É impressionante como os beijos entre mulheres parecem ser tão quente, mais intenso, carregados de desejos. O drama francês Azul é a cor mais quente mostrou isso.

A título de curiosidade e, sobretudo informação, o primeiro beijo entre mulheres no cinema aconteceu em 1931, no filme alemão Mädchen in Uniform, entre as atrizes Hertha Thiele e Emilia Unda. Isso é comentado durante a peça e eu achei que fosse um filme da Leni Riefenstahl, mas nada a ver.

* Este texto foi escrito ao som de: I never love a man the way Love you (Aretha Franklin – 1967)

Aretha Franklin

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