Diretores – Federico Fellini

O diretor nos bastidores de 8 e meio, na famosa cena do chicote

O diretor nos bastidores de 8 e meio, na famosa cena do chicote

Fellini é a força da alegoria no cinema, a magia do lirismo. Mas nem sempre foi assim, tão explícito e sensorial. No princípio o cineasta italiano era neo-realista na essência, escrevendo e dirigindo sobre a realidade que o circundava. E a perscrutava com a experiência de bom jornalista que foi. E essa realidade era uma Itália esfacelada tanto social, quanto economicamente, herança maldita do Duce e da 2ª Guerra Mundial.

Mesmo assim, a narrativa crua e dura de A estrada da vida – talvez seu maior sucesso dessa leva – deixa enviesar por entre a trama triste, leves toques de delírios alegóricos. Enquanto o egoísta e bruto Zampano (Anthonny Quinn) encarna a metáfora do dia a dia hostil, a ingênua e sonhadora Gelsomina (Giulietta Masina) representa a esperança niilista. Dessas duas contradições que o cinema de Fellini, tal qual conhecemos, surgiria.

Claro que a fase mais popular do diretor é a dos exageros visuais, dos devaneios passionais, dos personagens bufões e situações surreais. Tenho muita ternura também, mas como certa vez me encantei por uma garota que era apaixonada por Noites de Cabíria, assimilo melhor o Fellini mais discreto e comedido. Mesmo que no final ela acabaria levando meu DVD do filme embora e eu a ver navios, como em E la nave va.

Fellini foi um homem de cinema tão marcante em sua autenticidade que criou uma identidade cinematográfica difícil de igualar. Os filmes de Fellini são filmes de Fellini e pronto. Talvez porque suas referências resvalassem não propriamente em filmes e sim em elementos proustianos, freudianos e claro, fellinianos. E tem sempre aquela áurea de sonhos em seus filmes, será que é por conta da trilha do genial Nino Rota?

A estrada da vidaTop five

A estrada da vida (1954) – Melhor filme da fase neo-realista do diretor e um dos grandes do cinema, tem como enredo a aspereza do ser humano em seu estado bruto. As lágrimas rolam no final não de pena da pobre Gesolmina, mas de nós mesmo.

Fellini 8 e meio (1963) – Não há grande cineasta que não tenha embarcado no exercício da metalinguagem e em sua aventura no gênero o diretor discute a crise artística e pessoal. Há um toque todo proustiano na narrativa cercada de situações sublimes e burlescas. No final, o que nos fica é a ideia de arte como sentido para a vida.

A doce vida (1960) – Todo jornalista boêmio e meio cafajeste que se preze tem essa fita em boa conta. Hedonista Marcello (Marcello Mastroianni) fareja o lado bom da vida cobrindo festas de arromba da alta sociedade. Insatisfeito, meio cheio do que vê e faz entra em crise existencial e profissional e nós embarcamos nessa vibe felliniana. Foi o primeiro filme do mestre que me arrebataria pelo que ele ficou conhecido.

Noites de Cabíria (1957) – A ousadia do tema é incômoda hoje, imagina nos distantes anos 50. Uma prostituta de coração de ouro, Cabíria (Giulietta Masina) sonha em encontrar o grande amor de sua vida, mas só esbarra em sujeira e violência. O olhar irônico e cético de Fellini aqui lhe renderia seu segundo Oscar de Filme Estrangeiro (o primeiro seria por La Strada).

Amarcord (1974) – Aqui Fellini se faz menino para contar um período de sua infância em Rimini. É saudade com cheio de película. A palavra amarcord viraria sinônimo de Proust.

* Este texto foi escrito ao som de: Music to the films of Fellini (Nino Rota – 1985)

Nino Rota

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