Azul é a cor mais quente (2013)

Filme premiado em Cannes aborda de forma poética o sexo nas telas

Filme premiado em Cannes aborda de forma poética o sexo nas telas

Ultimamente tenho visto muita putaria no cinema. Tatuagem, de Hilton Lacerda, Ninfomaníaca, do Lars Von Trier, Triângulo amoroso, do Tom Tykwer, diretor alemão exibido na mostra Lume no Cine Brasília, e o comovente, Azul é a cor mais quente, que é bem delicado na abordagem do tema. Não sei se o filme ainda está em cartaz na cidade e, se tiver, corra e aproveita, porque é uma linda história de amor nas telonas. Uma das melhores que vi nos últimos tempos.

Dirigido pelo tunisiano Abdellatf Kechiche, o filme conta a história do amor visceral entre duas francesas de vidas e estilos diferentes. Adéle (Adéle Exarchopoulos), ainda dependente dos pais, enfrenta o rito de passagem que toda adolescente de sua idade enfrenta, buscando o equilíbrio entre a maturidade e a felicidade. Emma (Léa Seydoux), cabelo “azul fogo”, é super bem resolvida na vida, uma animal selvagem livre, leve e solta que desperta atenção por onde passa.

Um dia, as duas se esbarrarem pelas ruas da cidade e a fricção entre ambas é inevitável, com fagulhas de desejo, curiosidade e liberdade espargindo pelo ar, enfim, o amor está mais vivo do que nunca e não escolhe credo, raça, status ou sexo. “A vida é bizarra… Tem que aproveitar”, ensina o roteiro urgente.

Azul 3O sentimento mútuo entre as duas jovens é construído sob a égide da curiosidade e descoberta. Sinceridade e prazer. E é desses ingredientes e sensações que o espectador é fisgado, sem se importar com a temperatura das cenas mais quentes da fita. A câmera, com seus closes incômodos e voyeurismo, estreita a intimidade entre público e atores. Realidade e ficção. Na falta do falo o poder da vagina impera num misto de delicadeza e poesia. Confesso que poucas transas no cinema foram tão empolgantes e belas como aqui.

E aí tem a beleza das duas atrizes em cena. Cabelos desgrenhados, lábios carnudos e olhar carente, a bela Adéle Exarchopoulos é a minha mais nova musa das telas. Há duas fases da personagem que faz o tipo menina hetero descobrindo novos caminhos e impressões. Uma é ela estudante insegura, vítima de preconceito e temerosa em enfrentar novos desafios sentimentais. A outra é ela madura, calejada das agruras e peça que a vida nos prega, tentando ganhar a vida como professora. E que delícia de professora.

Agora, por favor, alguém aí me diga uma coisa. De onde saiu esse tunisiano Abdellatf Kechiche, um cineasta seguro de suas impressões e que dosa com sensibilidade tocante drama e beleza visual? É indiscutível a forma lírica como ele filma os corpos ardentes das duas jovens, quase derretendo de desejo ou nos detalhes de suas intimidades, como singelo beijo gay ofuscado pela luz do Sol. Louise Brooks, as singularidades entre, veja só, Sartre e Bob Marley, a luta pela igualdade e contra o preconceito, enfim, a cumplicidade simbólica da cor azul. Há muitos segredos e surpresas nesse que foi o grande vencedor da Palma de ouro de 2013. O bom cinema se faz, sobretudo, com poesia. Boa poesia.

* Este texto foi escrito ao som de: Tigermilk (Belle & Sebastian – 1996)

Tigermilk

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