Os cafajestes (1962)

Norma Bengell e o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Cena a transformou em diva e vilã

Norma Bengell e o primeiro nu frontal do cinema brasileiro. Cena a transformou em diva e vilã

Quem vê o Daniel Filho hoje, com toda aquela pose, arrogância e soberba, nem imagina que um dia ele já andou em porta mala de carro. Isso mesmo. Foi em 1962, em Os cafajestes, no primeiro longa-metragem do moçambicano radicado Brasil Ruy Guerra. Com fortes influências de nouvelle vague, o filme marcou o surgimento do Cinema Novo e causou bastante polêmica por causa do tema ousado para época.

Com produção de Jece Valadão – protagonista da fita -, a história conta um dia e uma noite na vida de dois canastrões que tiraram esse tempo em busca de dinheiro, mulheres e diversão. Eles são Jandir (Jece) e Vavá (Daniel Filho) e urdiram um plano que vão unir esses três ingredientes em torno de uma chantagem envolvendo o tio de um deles com a amante. “Um pouquinho de arte nunca atrapalhou a vida de ninguém”, diz o sobrinho mimado, empolgado com a empreitada. “Agora é tarde. Entrou no brinquedo tem que entrar”, se irrita o outro quando o mesmo se mostra temeroso.

Simples no enredo construído pelo diretor Ruy Guerra, a partir do argumento de Miguel Torres, Os cafajestes causou frisson na forma. Câmera na mão transitando pelas ruas, focada em personagens à margem da sociedade. Não dá para esquivar, a influência direta aqui é Acossado (1959), de Jean-Luc Godard. A ousadia resvala também na trilha sonora sofisticada de Luiz Eça – um dos expoentes indiretos da bossa nova que -, que mistura esse gênero com elementos do jazz.

Os cafajestesDaí tem a famosa cena de nudez frontal da atriz Norma Bengell (morta em outubro do ano passado) pelas praias de Cabo Frio (RJ), o primeiro do cinema brasileiro contemporâneo e esse momento mágico faria da jovem estrela uma diva, assim como uma vilã da conservadora sociedade da época. “De conversível a velocípede, sabe aonde você vai chegar? A crápula!”, desdenha o malandro Jandir.

Meio imerso num transe, os personagens de Os cafajestes parecem o tempo estar dispostos a romper os limites do convencional e burlesco. São desajustados, intolerantes e ousados. Enfim, cafajestes na essência da palavra. Por nenhum problema em cantar garotas pelas ruas, a torto e direito, surfar endiabrados em cima do capô do carro em plena rodovia – mas uma das peripécias de Daniel Filho, que dispensou dublê – ou mergulhar nas drogas, que no filme surgem quase como personagens em cena. Isso numa época em que um simples cigarro já causava certo incômodo aos mais quadrados.

Cada vez mais sufocado pela repressão, o cineasta Ruy Guerra, assim como seus pares no métier, a partir dali se viu obrigado a criar obras alegoria para driblar a censura. Quando os anos de chumbos foram embora, ele passaria a filmar sazonalmente, nos brindando com trabalhos de peso como Ópera do malandro (1985), Kuarup (1989) e Veneno da madrugada (2006).

Nenhuma delas tão fulminantes do que Os cafajestes. Poucas estreia no cinema nacional foram tão impactantes como aqui.

* Este texto foi escrito ao som de: Time out (Dave Brubeck Quartet – 1959)

Time out

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