Ninfomaníaca – Volume 1 (2013)

Banalizar o filme de "porn soft" é ser preguiçoso diante das questões levantadas pelo diretor

Banalizar o filme de “pornô soft” é ser preguiçoso diante das questões levantadas pelo diretor

Sendo bem sincero? Não sei se gostei de Ninfomaníaca do Lars von Trier não. Mas também não andei escrevendo bobagens por aí dizendo que o filme é um porn soft didático e coisas do tipo. Acho que é uma forma preguiçosa e banal de escancarar o desprezo pelo polêmico diretor que é uma metralhadora de surpresas desagradáveis. O filme, que estreia hoje nos cinemas da cidade, é uma delas. E convenhamos. Não estamos falando de qualquer um, mas de Lars von Trier, um dos cineastas mais contundentes e instigantes da atualidade. Quer você goste ou não, tem que parar para ver o que o cara está aprontando.

Antes de tudo é bom que se diga. Todos os caminhos levam ao sexo, tudo gira em torno dele desde a nossa tenra idade. E é a partir dessa premissa provocante e inevitável que o dinamarquês louco constrói essa narrativa sob camadas de sonhos-pesadelos, dos distúrbios psicanalíticos da desnorteada, Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher encontrada jogada no meio da rua num frio de Sibéria de lugar sem nome.

“Não entendo esse ódio de si mesma”, indaga, intrigado, o metódico judeu Seligman (Stellan Skarsgård), o homem que encontrou essa estranha alma solitária no meio do nada e a acolheu em sua casa como a um pai. Mas do que isso, curioso e protetor, ele ajuda Joe entender as angústias ninfomaníacas que a perturbam agindo meio como analista amador. “Descobri meu poder como mulher e me aproveitei disso sem pensar nos outros”, diz ela com aparente sentimento de culpa.

E enquanto ela não se resolve entre os seus fantasmas do passado e do presente – este uma Cr?dito: California Filmes/Divulga??o. Cartaz do filme Ninfomaniaca.incógnita perturbadora -, somos presenteados com sequências incômodas de sexo explícito. E claro, em se tratando de Lars von Trier, o desconforto é bem maior do que em filmes de pornografia convencional, por conta da discussão existencial da personagem que não consegue se saciar e nem satisfazer suas vítimas. Parece ser bem mais fácil ver o filme numa primeira vez e se escandalizar com o festival de fornicação, rotulando tudo de gratuidade exibicionista, mas banal mesmo é a nossa incapacidade de compreender nossos instintos mais primitivos.

“Para mim o amor é luxúria associada ao ciúme”, observa Joe, que suscita reflexões matemáticas, polifônicas e até voltada à arte da pescaria do que ouve.

Dois momentos do filme são perturbadores em suas nuances tragicômicas e aqui vai um pouco do desprezo cínico que Lars Von Trier sente pelo ser humano. Sentimento, diga-se de passagem, diluído em vários de seus filmes. Um deles é na cena da jovem tendo um orgasmo diante da figura do pai morto no sanatório. A outra é a “patética” performance de mulher traída de Uma Thurman, rodeado por três pimpolhos abestalhados. “Ahaaa, Então é aqui que fica a cama da prostituição de vocês”, provoca debilmente, numa atitude de quem não sabe perder o marido por uma adolescente devoradora de sexo.

Bom, dizem que Ninfomaníaca – Volume 2 é bem mais pesado que esse primeiro tomo, mas não vou pagar para ver. Na boa, fiquei bem mais excitado com as trepadas lésbicas do comovente drama francês, Azul é a cor mais quente. Um filme que mostra que sexo no cinema pode ser explícito sem perder a ternura jamais

* Este texto foi escrito ao som de: Closer (Joy Division – 1980)

Closer

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