Diretores – Glauber Rocha

O cineasta baiano tinha um estilo barroco que conduzia com espírito vanguardista

O cineasta baiano tinha um estilo barroco que conduzia com espírito vanguardista

Bom, para aqueles que me acompanham aqui de longa data uma novidade. Começa hoje a série sobre os cineastas que marcaram minha vida desde que passei a me entregar, de corpo e alma, ao estudo da sétima arte, uma das minhas paixões junto com a música e com os livros. Serão perfis pessoais e sensoriais sobre a trajetória e obra de cinquenta grandes diretores de cinemas de todos os tempos e começo o texto de hoje homenageado Dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber Rocha, que morreu na última sexta-feira, aos 94 anos.

Recebo a notícia com pesar, mas me recordando das deliciosas entrevistas com Dona Lúcia nos bastidores do Festival de Brasília, onde ela, figura marcante, roubava sem querer, o brilho das estrelas. De algumas edições para cá eu vinha sentindo falta da presença autêntica dela num evento que, a cada ano, só tem sido banalizado pelo pseudo glamour.

Vulcânico e original, Glauber Rocha meio que reinventou a forma de se fazer cinema no Brasil à frente do provocador movimento Cinema Novo. Seu estilo era, mais do que tudo, político, numa época em que não se podia falar sobre o assunto em quaisquer que fossem os segmentos artísticos. Daí o toque alegórico de suas narrativas, assim como ele, em eterno estado de convulsão.

Os primeiros filmes de Glauber eu tive oportunidade de ver na faculdade, graças ao professores Gustavo Lisboa e Antônio Máximo. Apaixonei-me pelo lirismo barroco Deus e o diabo na Terra do Sol, mas Terra em Transe trazia um dos personagens mais perturbadores da literatura cinematográfica, o poeta Paulo Martins, vivido pelo intenso Jardel Filho.

Terra em transeTop Five

 

Terra em transe (1967) – Talvez um dos filmes mais transgressivos brasileiros já realizados – pelo menos do ponto de vista do contexto político-social – fui fisgado logo de cara pela intensidade do personagem de Jardel Filho, o poeta Paulo Martins. A influência de Cidadão Kane de Orson Welles é visível quadro a quadro, mas o que impera é o estilo convulsivo do cineasta.

Deus e o diabo na Terra do Sol (1964) – Fã de carteirinha de John Ford, Glauber Rocha aqui presta uma homenagem ao gênero cinematográfico norte-americano por excelência, o faroeste. Agregando elementos da cultura nacional, entre eles o clássico Os sertões, o cneasta baiano polariza a discussão política no país com sua crítica social pré anos de chumbo.

Di (1977) – Ousado, esse curta vencedor no Festival de Cannes é uma provocação estético-vanguardista tendo como tema – veja só! – o enterro do pintor Di Cavalcanti. A família não entendeu nada e até hoje proibiu o filme de ser comercializado. Ainda bem que temos o Youtube.

Barravento (1962) – A direção desse filme caiu de pára-quedas no colo de um inexperiente Glauber que não fez feio em sua estréia como cineasta. Nota-se aqui e acolá o estilo polêmico que o acompanharia a vida toda na história de um pescador (Antônio Pitanga) que questiona o misticismo do povo da aldeia em que nasceu.

Câncer (1972) – Não entendi nada e acho que nem era para entender, já que a intenção de Glauber aqui era de provocar. Flertando com o cinema marginal o filme é um teste de resistência aos amantes de cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Tropicália (Caetano Veloso – 1968)

Tropicália - Caetano Veloso

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