Jukebox Sentimental – Donna

O jovem astro Ritchie Valens e a musa inspiradora Donna...

O jovem astro de origem mexicana, Ritchie Valens, e sua musa inspiradora Donna…

Tem uma imagem poética que o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues adorava citar constantemente em seus textos. Não sei se vocês conhecem, mas era uma referente ao escritor francês Marcel Proust que, ao mordiscar uma madeleine, num daqueles charmosos cafés parisienses, deu origem à monumental obra Em busca do tempo perdido. A coleção de textos de Proust não só é sua obra mais importante, como também uma das mais significativas da literatura universal. Bem, ainda não a li, mas os três volumes da editora Globo que tenho estão bem ali guardadinhos na minha estante mágica.

Mas por que estou dizendo isso afinal? Ah, sim, lembrei, é porque outro dia, no TCM, me flagrei assistindo ao filme La Bamba sobre a trajetória do cantor norte-americano de origem mexicana Ritchie Valens -, e ao ouvir a balada Donna, sofri um desses processos remissivos viajando no tempo.

Sim, num piscar de olhos, me chapa, flanei em nuvens do passado e logo me vi mais jovem do que sou agora, com uniforme branco em detalhes marrom e tudo mais, lá nos meus tempos de secundarista. Naquela época eu era um rapazote ingênuo, com o futuro ainda embaçado, mas completamente apaixonado, perdido de amores por uma garota tão linda e fascinante quanto a Donna de Ritchie Valens. Nossa, mas como ela era linda, com seus cabelos cor de milho e olhos azul paraíso.

Isso é o que uma canção é capaz de fazer. Ou seja, tão sensorial quanto um La Bambaperfume ou o gosto de uma bolacha, mais ainda o beijo molhado de um caso fortuito, essa fórmula sonora mágica é capaz de feitos transcendentes, inefáveis. E por que decidi encerrar minha série Jukebox sentimental com Donna e não La Bamba, a música mais quente do filme? Nada a ver com Sá e Guarabira, e sim com o fato deu ser um sujeito extremamente sensível.

Rapaz pobre nascido em Pacoima, no Vale de São Fernando, na Califórnia, Ricardo Esteban Valenzuela Reyes virou estrela do rock da noite para o dia, seguindo as pegadas de Elvis Presley e Chuck Berry. Isso graças aos ouvidos clínicos do executivo da música Bob Keane, que percebeu ali uma joia rara. Já em 1958, aos 17 anos, o precoce artista já tinha emplacado três hits nas paradas dos sucessos: Come on, Lets go, Donna e o mega sucesso La Bamba, meio que surrupiada do folclore cancioneiro mexicano.

Donna é uma escancarada e sincera declaração de amor de Ritchie à sua musa, então uma jovem de classe média alta que os pais não queriam saber de vê-la envolvida com um “italiano”. Quando Ritchie Valens a escreveu, estava proibido de ver a garota dos seus sonhos, daí o desespero de alguns versos, mas o amor falou mais forte e triunfou sobre o preconceito. “Eu tive uma garota/Donna era o seu nome/Desde que ela me deixou/Eu nunca mais fui o mesmo”, diz um dos versos simples, mas sincero.

Naqueles meus quinze, dezesseis anos, adorava ouvir Donna incessantemente, me imaginava nos braços da minha secundarista de olhos azuis e cabelo cor de milho, deixando o cheiro de seu perfume me enfeitiçar. Para mim, essa canção vem embrulhada em papel celofane cor saudade, saudade dos meus dias de adolescente. E toda às vezes que a ouço, uma página desses tempos de inocência me vem à cabeça.

Tragicamente morto em um acidente aéreo, Ritchie Valens não teve a chance de ver sua meteórica carreira chegar ao estrelato, mas as canções que escreveu ainda hoje embalam alguns corações solitários. O meu é um deles.

* Este texto foi escrito ao som de: Ritchie Valens (1959)

Ritchie Valens

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