Crônica de uma vida de mulher – Arthur Schnitzler

Sem o sentimentalismo das obras do séc. 19, o romance prima pelas nuanças psicanalíticas

O autor vienense era muito próximo de Sigmund Freud, daí as nuances psicanalíticas da narrativa

O nome de Arthur Schnitzler chegou a mim via Stanley Kubrick já que, De olhos bem fechados, seu último trabalho, é adaptação de um conto do escritor austríaco. Agora se você me perguntar por que no momento estou lendo Crônica de uma vida de mulher do autor, não sei dizer. Na época em que comecei a ler até saberia explicar, mas agora não me lembro mais. Simplesmente tirei o livro da estante e comecei a devorá-lo. Mas acho que tem alguma coisa a ver com Sigmund Freud. Isso porque a literatura de Schnitzler é bem psicanalítica.

As afinidades entre os dois intelectuais da Viena do “fim de século” eram mais estreitas do que se poderia imaginar. Além de vienenses, compartilham o ofício da medicina e ambos tinham origem judaica, frequentando o mesmo círculo social. Freud jogava cartas com o irmão de Arthur Schnitzler e chegou a ser operado por um cunhado do escritor.

Sabe-se que Arthur Schnitzler e Freud trocaram cerca de dez cartas ao longo da vida e se encontraram poucas vezes. Numa missiva de 1922, parabenizando os 60 anos do amigo romancista, o pai da psicanálise diagnosticava o motivo da distância entre ambos. “Penso que eu tenho evitado contato convosco devido a uma espécie de medo do duplo”, teria justificado.

Talvez por conta dessas particularidades pessoais e profissionais que Arthur Schnitzler certa vez chegou a dizer numa entrevista da época que se sentia “irmão gêmeo” de Freud.

Cafés vienensesBom, o nariz de cera enorme aí só para dizer que, Crônica de uma vida de mulher, escrito por Schnitzler em 1928, três anos antes de sua morte, bem que poderia ter sido extraído de um prontuário clínico de Freud. Digo isso por conta do mergulho profundo do autor não apenas na psique da personagem central da trama, a desnorteada Therese Fabiani, mas de como sua trágica e turbulenta vida se reflete, do ponto de vista social, no declínio de toda uma sociedade, no caso aqui, o império Autro-Húngaro.

“De quebra, um fado individual é sempre mote eficaz para desmascarar a realidade social abrangente”, comenta o tradutor Marcelo Backes no prefácio da obra.

Uma autêntica jovem austríaca de família decadente, Therese, cuja vida o leitor passa a compartilhar a partir dos 16 anos, perde o pai para insanidade e convive às turras com a mãe esnobe, uma escritora medíocre de folhetins que não admite ter chegado ao fim do poço, vivendo de aparências. O irmão Karl, com quem ela também não se dá muito bem, é um jovem ambicioso estudante de medicina que, como a maioria de seus pares, se mostra simpatizante dos ideais nacional-socialistas, apresentando assim uma mentalidade anti-semita.

Quando a mãe, na condição de cafetina, tenta jogá-la nos braços de um velho asqueroso, sem se entristecer, ela que é uma jovem romântica que ainda preserva os valores do conservador século 19, decide seguir seu próprio caminho. E é aí que, entrando em choque com a falta de princípios morais do século que estar por vir, ela enfrentará e sentirá, na pele, a verdadeira vida.

Na condição de narrador onisciente, Arthur Schnitzler detalha a vida de sofrimento e perversões da jovem Therese, vivendo um romance passageiro atrás do outro. Um dia, por descuido, engravida e passa a ter como fardo o pequeno Franz, peça determinante em seus dias finais.

Longe do sentimentalismo característico de boa parte dos romances do século 19, Crônica de uma vida de mulher é contundente ao evidenciar a solidão da mulher em meio a uma sociedade machista. Algo que, de lá para cá, muito pouco mudou.

* Este texto foi escrito ao som de: O anel do Nibelungo (Richard Wagner – 1848/1876)

Richard Wagner

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