Jukebox Sentimental – I can’t stop loving you

 

Ray Charles e seu coro angelical de belas negras embalou o Natal de minha infância

Ray Charles e seu coro angelical de belas negras embalou o Natal de minha infância

Não gosto nem um pouco do Natal porque é uma data que me traz recordações tristes, baby. Sendo bem sincero, posso contar nos dedos de uma das minhas mãos os momentos felizes que essas comemorações de fim de ano me trouxeram. Bem poucas, garanto, não chegam a cinco. Mas há um espaço mágico da minha infância em que as luzes laranja daquela árvore de natal piscavam sem parar na escuridão da sala e eu ouvia, em estado de êxtase, essa canção de Ray Charles sem saber quem ele era. Aliás, eu nem sonhava em saber quem era Ray Charles naquela época porque nem os Beatles eu conhecia. Acho que, se muito o Elvis Presley, por causa dos vinis do coroa.

“Não posso parar de amar você/Eu moldei minha mente/Para viver nas memórias/Dos tempos de solidão/Não posso parar de amar você”, canta o artista, com um coro de vozes negras de arrepiar, e os versos entravam em minhas entranhas como um soro da vida, um sol da manhã e da noite.

E, como num passe de mágica, ao ouvir a canção novamente por esses dias, volto no tempo e estou agora deitado no chão da sala de estar da minha casa, não sei se em Brasília ou em algum outro lugar. Só sei que tenho sete ou oito anos e ouço no escuro da minha solidão essa canção angelical, norteado pelas luzes laranja da árvore de Natal e o verde sonho do dial do aparelho de som ligado, ambas iluminando minha alma inocente.

Elvis“É inútil dizer/Então vou apenas viver minha vida nos sonhos de ontem/(Sonhos de ontem)/Aquelas horas felizes que tivemos”, continua o artista cego, no breu de sua emoção.

Gozado que sempre achei que I can´t stop loving you fosse uma autêntica canção de Ray Charles, tamanha a emoção em que o artista imprime à essa versão e aqui entra em cena o talento de um intérprete nato. Poucos têm esse dom. Elvis Presley foi um deles, mas aí meu chapa, é outra história.

Mas quer saber? Outra história uma pinóia porque, escrita pelo cantor country Don Gibson que a gravou em 1957, a música ganhou um toque épico graça à interpretação emotiva de Ray Charles e seu coro de garotas negras lindas e angelicais, mas também imortalizada na voz do rei do rock. “Embora faça tanto tempo/Ainda me deixam pra baixo/Dizem que o tempo cura um coração partido/Mas o tempo parou desde que nos separamos”, diz o verso mais contundente.

Sim, e o tempo pode ser uma cura ou não, depende de como o seu relógio do amor esteja funcionando e, no meu caso, parece que ele parou, está quebrando a algum tempo, me fazendo sofrer ad eternum, como um Prometeu da era moderna. “Não posso parar de amar você/(…) É inútil/(…) Estou decidido a viver/A viver da memória nos momentos de solidão/não posso parar de amar você”, os versos se confundem em minha cabeça.

Esse ano, como das outras vezes, meu Natal é triste e cinza como uma noite no Pólo Norte sem Papai Noel. Mas tenho a fantasia de uma alegria nostálgica todas às vezes que vejo as luzes laranja da árvore de Natal da minha infância. Uma imagem pseudolírica que me fazem ser levados pelas ondas sonoras da voz de Ray Charles.

* Este texto foi escrito ao som de: I can´t stop loving you (Ray Charles – 1962)

Ray Charles 3

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