Chuvas de verão (1978)

No filme, Cacá Diegues mostra que para o amor a idade é só um detalhe

No filme, Cacá Diegues mostra que para o amor a idade é só um detalhe

Quando o Cinema Novo estava no seu auge, o cineasta Cacá Diegues estava lá, o que faz dele, desde já, um dos pioneiros do movimento cinematográfico brasileiro mais importante. E o cara não fez feio, emplacando obras de peso que condiziam com a proposta vigente da corrente como Cinco vezes favela (1962), Ganga Zumba (1964), A grande cidade (1966) e Os herdeiros (1969).

Contudo, os melhores trabalhos do diretor nascido em Maceió, mas radicado no Rio de Janeiro, são aquelas imantadas pela maturidade que a carreira profissional lhe deu como Quando o carnaval chegar (1972), Xica da Silva (1976) e Bye bye Brasil (1980). Chuvas de verão (1978), exibido outro dia no Canal Brasil dentro da programação que homenageia o artista com a exibição dos seus filmes mais emblemáticos é uma delas.

Bacana a iniciativa do Canal Brasil porque há bastante tempo que estava querendo ver esse filme que é o preferido do Cacá Diegues. Com uma pegada neo-realista e um pé nos filmes humanos de Ettore Scola, o roteiro assinado pelo o diretor fala do amor na terceira idade. Um tema que até pode ser bastante comum nos dias de hoje, mas que naqueles distantes anos 70 era vista quase como que tabu.

“Nenhum dos dois tem mais idade para essas coisas. Não temos mais idade para o amor. Isso é ridículo”, se penitencia dona Isaura, vivida pela ótima Miriam Pires, uma atriz que, como o veterano Jofre Soares, já parece ter nascido velho.

Chuvas de verãoMais isso só acontece nos últimos dez minutos da trama, quando os dois amantes reprimidos se entregam sôfregos ao amor, completamente nus, no chão da sala, numa tarde de chuva torrencial. A ousadia da cena é antológica. Antes, o carismático seu Afonso vive a condição do homem suburbano autêntico que acaba de se aposentar após uma vida inteira de trabalho. “Uma vida toda de trabalho para ganhar uma caneta de outro”, resmunga.

O filme percorre os agitados cinco dias desse ilustre aposentado que vive agora cercado de uma fauna ignara de personagens formidáveis. Um deles é o melancólico e solícito vizinho Lourenço (Rodolfo Arena), o outrora nostálgico Palhaço Guaraná – outro é um bandido foragido da polícia que por acaso é amante de sua empregada (Cristina Aché) -, além do malandro “entrão”, Juraci (Paulo César Pereio), assim como a filha desnorteada Dodora, que amarga as agruras de ser negligenciada por um marido gay (Daniel Filho).

“A solidão a gente cuida se interessando pelos outros”, consola um dos personagens.

Alguns personagens se mostraram deslocados dentro da narrativa, talvez por conta da irregularidade das atuações, mas nada que macula a mensagem sublime do filme, talvez um dos mais tocantes do cineasta.

Aliás, digo com orgulho que tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Cacá Diegues por conta de uma entrevista sobre o filme O maior amor do mundo (2006). Voz tonitruante de profeta de filme de Cecil B. De Mille e simpatia efuziante, o cara me encantou. Senti-me um privilegiado por estar frente a frente com um dos grandes nomes do Cinema Novo. Um dos grandes nomes do cinema brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Dez anos depois (Nara Leão – 1971)

Nara Leão 2

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