O céu por testemunha (1957)

Deborah Kerr e Robert Mitchum tentados pelo pecado do desejo numa ilha deserta

Deborah Kerr e Robert Mitchum: tentados pelo pecado do desejo numa ilha deserta

Diretor, ator e escritor, John Huston foi um dos grandes do cinema. E não apenas porque era um cineasta formidável que imprimia às suas histórias drama e reflexões existenciais angustiantes, mas também porque polemizava com elegância temas contundentes da vida real, como mostra o drama de 1957, O céu por testemunha (Heaven knows, Mr. Allison), um dos destaques deste fim de ano do Telecine Cult.

Ambientado em 1944, no Sul do Pacífico, durante a 2ª Guerra Mundial, a história é uma versão moderna e picante do náufrago Robinson Crusoé de Daniel Dafoe. O herói da fita aqui é o cabo Allison, o bonitão Robert Mitchum, em atuação para lá de marcante.

Sobrevivente de um submarino atacado pelos japoneses, ele está à deriva em alto mar num bote salva-vidas. Com a ajuda do vento e da sorte, finalmente chega a uma ilha no meio do nada, aparentemente abandonada, lá pelos lados de Fiji. Mas ao explorar o lugar, descobre que a única sobrevivente é uma freira, Irmã Angela (a lindinha Deborah Kerr), há quatro dias vivendo sozinha numa aldeia em ruínas.

O plano inicial da dupla desajustada era construir uma jangada improvisada e zarpar para longe, mas o bom senso e o juízo mostraram que a melhor saída é esperar a chegada dos aliados. Enquanto isso não acontece, os dois driblam a solidão se conhecendo cada vez melhor, apesar da diferença de corpo e alma que os separam.

O céu por testemunha 3Cheio de malícias capciosas costuradas dentro de narrativa inteligente e sensível, o roteiro de John Huston e John Lee Mahin, baseado em novela de Charles Shaw, se mostrava desde o início um terreno fértil para insinuações veladas sobre sexo, amor reprimido e críticas às instituições rígidas. Daí a presença ostensiva da Legião Nacional da Decência junto à produção ao longo de toda a filmagem. E tinha razão de ser.

“Porque você tem que ter grandes olhos azuis e um lindo sorriso?”, questiona o embasbacado cabo, diante da beleza angelical da freira. “Tudo o que temos é um ao outro. Como Adão e Eva no paraíso”, se entrega cheio de desejo, depois de tomar um porre de saquê.

Rodado em Trindade e Tobago, John Huston, que não era um religioso ortodoxo, explora bem os conflitos entre a impotência humana e a onipresença metafísica com imagens imponentes de um eloquente céu azul. Como em vários trabalhos do cineasta, mais uma vez um texto afiado e reflexivo está à disposição de atuações exuberantes e os atores não decepcionam. E, como estamos nos distantes anos 50, a intenção do pecado que o tempo todo paira sob a trama, é revelado de forma sutil. E talvez por isso mesmo, seja mais pungente aos olhos do espectador.

* Este texto foi escrito ao som de: If I could only remember my name (David Crosby – 1971)

David Crosby

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