Jukebox Sentimental – Farrapo Humano

Conheci o Luiz Melodia primeiro do que sua obra e virei fã para sempre

Conheci o Luiz Melodia primeiro do que sua obra e virei fã para sempre

Coisas maravilhosamente estranhas acontecem comigo, assim, de vez em quando, o tempo todo. E se um dia eu fosse entender acho que ia acontecer mais ou menos aquilo que rolou com o John Malkovich quando ele entrou em sua cabeça, naquele filme doido do Spike Jonze. Enfim, Em 2007 fui à cidade de Atibaia (SP), localizada pouco mais de 50 km da capital paulista, para fazer a cobertura do Festival de Cinema local. Aproveitei a oportunidade e dei um pulinho em Sampa para conferir o frenesi da grande urbe e aproveitei para comprar algumas velharias bacanas num sebo bem ali na Augusta que esqueci o nome e nem deve existir mais.

Adquiri, entre outras coisas, uma edição de Almoço nu, de William S. Burroughs, e o The man who sold the world, do David  Bowie. Mas o grande tesouro, a joia entre todas as raridades, pelo menos para mim, foi o discão, Pérola negra, de Luiz Melodia, que nunca tinha escutado, mas sabia da importância do trabalho de leituras.

Daí, peguei o “buzão” rumo ao interior matutando comigo que só ia escutar aquelas preciosidades quase uma semana depois, quando voltasse em casa. Acontece que, ao chegar ao hotel, esbarro na recepção com ninguém menos que o Luiz Melodia, artista que faria o show de abertura do evento cinematográfico, coisa que eu não sabia.

Tipo assim, tal qual aquele personagem de Machado de Assis, cair das nuvens e, tremendo, nem titubeei em pedir autógrafo para o cara bem ali no cd que acabara de comprar. Bem educado e elegante, ele me atendeu na hora e acho que foi a primeira vez na vida que virei fã de um artista antes de conhecer um trabalho seu. À noite, durante a apresentação num teatro histórico, eu era só, lágrimas e soluços.

Bom, se você não conhece Luiz Melodia e nem esse disco gravado em 1973, então não sabe o Luiz Melodia 4que está perdendo. Ou melhor, está perdendo a chance de ouvir uma das obras-primas da MPB. Esbanjando maturidade, apesar da pouca idade na época, o cantor e compositor expõe com visceral espontaneidade seus amores e suas dores em canções e letras de arrepiar os cabelos do braço, de fazer estremecer, abalar as cavidades mais recônditas do coração.

Vou falar uma coisa para vocês, poucos álbuns apresentam uma unidade sonora tão intensa e ímpar como aqui, onde todas as faixas são um sundae de tão deliciosas. E desse caldeirão de melodias que mescla com inteligência e sensibilidade rock, blues, soul e, claro, samba, escolho como canção dessa edição da minha, jukebox sentimental, a pessimista, Farrapo humano, cujo título deve ter sido surrupiado daquele filme do Billy Wilder.

E a escolha é bem sintomática porque na época eu vivia um drama parecido com o personagem da letra, pensando em suicídio e tudo o mais. “Eu choro tanto/Me escondo, não digo/Viro um farrapo/Tento suicídio/Com caco de telha/Com caco de vidro”, diz um trecho da letra que é um sopro de dramaticidade emocional sufocante.

Hoje, toda vez que vejo pelas ruas pedaços de tijolos ou caco de vidro me vem à cabeça imediatamente essa canção e os dias em que sofri querendo tirar minha vida por uma garota que acho que não gosta nem dela.

* Este texto foi escrito ao som de: Pérola negra (Luiz Melodia – 1973)

Pérola negra

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