As lições de Água Viva

O saudoso Cláudio Cavalcanti como o romântico professor Edir

O saudoso Cláudio Cavalcanti como o romântico e careta professor Edir

Parafraseando o Didi, dos trapalhões, sou o maior noveleiro do Ceará. Mas acontece que gosto de assistir novelas antigas, algumas do tempo em que eu nem me entendia por gente. Por exemplo, quando Água viva foi apresentada pela primeira vez na Rede Globo, eu tinha apenas quatro anos de idade. De modo que agora com a reprise desse grande sucesso da televisão brasileira no Canal Viva, posso me deleitar aos montes.

E vendo esse folhetim de Gilberto Braga, confesso que não fazem mais novelas como antigamente. Mudou tudo e não sei se para melhor. Uma das enormes diferenças que estou sentido é com relação à montagem. Antigamente, as conversas entre dois personagens eram mais demoradas, os diálogos mais profundos e intensos. Hoje parece clipe da MTV, tudo muito rápido e superficial. Talvez por isso que outro dia um colega meu estava indignado com Amor à vida.

Na maior cara de pau sugeri que ele trocasse de emissora, que desse um teco no Canal Viva para ver Água Viva, que tem sido uma grande lição para mim. E porque uma lição? Ora, pelo humanismo dos dramas dos personagens. No momento, estou fissurado no papel do saudoso ator Cláudio Cavalcanti, o professor Edir, um homem simples e batalhador que quer viver a vida da forma mais correta possível. E de tão politicamente correto que ele é que o cara chega a ser careta, careta pacas.

Agua vivaE ele é de um romantismo comovente, ingênuo, com sua vontade de mudar o mundo que o cerca, cheio de pessoas medíocres, egoístas e rasas, de almas perturbadoramente vazias. Pessoas sempre atentas e escravizadas pelo materialismo. Uma delas é a alpinista Lígia Prado, vivida pela sempre elegante Betty Faria, uma proprietária de boutique chique do Rio que sonha em encontrar o seu príncipe encantado. No caso aqui, o cirurgião plástico, Miguel Fragonard (Raul Cortez, no auge de seu charme).

“Por que as pessoas acham que os príncipes encantados têm que ser ricos e bonitos?”, questiona em dado momento, Janete, personagem da marota Lucélia Santos.

Sim, por quê? Eis uma coisa que não sei explicar, que nunca entendi.

Pois bem, outro dia, no afã ridículo de fisgar seu príncipe das arábias – um homem culto e conhecedor das artes -, a alpinista social Lígia Prado cismou que deveria saber um pouco mais das coisas “importantes” da vida para conquistar um homem. E não eram virtudes como caráter, sinceridade, respeito ao próximo, honestidade, mas questões burguesas como a importância do neo-realismo italiano, o lirismo por trás da Ópera, quem foi Federico Fellini ou o segredo por trás dos olhos de ressaca de Capitu.

E ao mergulhar fundo nessas informações, nossa heroína do cinismo estava se mostrando ser uma pessoa nada a ver com sua verdadeira personalidade e eis aí o “x” da questão. Ou seja, no fundo, bem lá no fundo, ninguém é o que aparente ser. Enfim, Lígia Prado não gosta de Miguel Fragonard pelo o que ele é, mas pelo o que ele tem e representa perante a sociedade. E para estar ao lado dele ela tem que ser o que não é.

O que o Gilberto Braga quer nos mostrar aqui é que nós somos o que as pessoas querem que a gente seja. E não o que verdadeiramente somos. O nosso verdadeiro “Eu” não interessa a ninguém.

Penso, logo desisto.

* Este texto foi escrito ao som de: Água Viva – Trilha Sonora Internacional (1980)

Trilha

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