Os suspeitos (2013)

Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, num duelo acirrado entre a razão e a emoção

Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, num duelo acirrado entre a razão e a emoção

O sério cinema norte-americano atual anda num estado de letargia tão grande que quando assistimos a uma produção boa levamos um susto. E no caso do drama de suspense Os suspeitos, em cartaz na cidade, o susto é duplo. O diretor do filme é um sujeito que numa ouvi falar chamado Denis Villeneuve. Embora o cara tenha feito um bom trabalho o nome importante nesse projeto é de Aaron Guzikowski, roteirista iniciante que conseguiu escrever a história mais horripilante do cinema este ano.

E se você é do tipo que nem eu que tem filhos em casa aconselho não assistir essa trama. Sim, porque se eu soubesse que a história fosse tão angustiante e pesada assim não teria visto. Bem, era para ser um Dia de Ação de Graça como outro qualquer, com muita comida, alegria e carinho familiar, mas as filhas caçulas dos Dover e Birch somem do nada num dia de chuva torrencial. A suspeita recai sobre um estranho que tem um trailer estacionado próximo ao lugar onde elas estavam.

Mas ele parece não saber de nada. Na verdade, foi diagnosticado pelas autoridades como um homem de QI baixo. “Como uma pessoa que dirige um trailer tem QI de uma criança de dez anos?”, questiona um dos pais, vivido pelo galã Hugh Jackman. “Acuse ele de alguma coisa”, se desespera ao saber que, por falta de prova, a polícia está preste a soltá-lo.

Revoltado com a negligência e burocracia dos homens da lei, o marceneiro Keller (Hugh Jackman) decide fazer justiça com as próprias mãos. Mas para seguir adiante em seu plano de vingança pessoal terá que passar por cima do detetive Loki (Jake Gyllenhaall). Sim, porque um crime justifica o outro? Daí se dá uma queda de braço ferrenho entre a emoção e a razão.

Os suspeitos 2Comovente e perturbador, o enredo de Os suspeitos, que lembra um pouco O silêncio dos inocentes, é engenhoso em sua trama labiríntica que conduz o espectador num cenário de horror, medo e desespero sem fim. A narrativa arrastada às vezes incomoda, mas não mais do que os crimes macabros e personagens grotescos que vão surgindo dentro do filme sob camadas.

“Reze pelo melhor, prepare-se para o pior”, balbucia, interiormente, o detetive Loki, perturbado com a eminência de ser vencido pelo diabo em pessoa. Mas quem é esse demônio? Ele tem rosto? “Nem sempre dá para ser herói”, consola o chefe escroto.

Maníacos sexuais, um padre com pinta de pedófilo, os abutres da imprensa na janela das vítimas, suicídio, serpentes pegajosas, tortura, o santo nome de deus em vão quando ele parece ter esquecido todo mundo, enfim, um cocktail de surpresas desagradáveis que irão conduzir o espectador até o desfecho exemplar, quase bíblico.

Acostumado a salvar a humanidade um filme sim, outro não, o bonitão Hugh Jackman tem a chance de mostrar que além de beleza e músculo também é talento. Mas aqui tem que dividir os louros com o excelente Jake Gyllenhaall, já que o filme é tanto dele quanto do eterno Wolverine. A densidade dos dois personagens em cena promovida pelas atuações intensas dos atores é algo exultante.

Ao sair da sessão mais combalido do que um soldado derrotado a constatação que me veio à cabeça é de que a mente humana é uma caverna cheia de maldades sem limite. Portanto, deveria ser extinta da face da terra.

* Este texto foi escrito ao som de: Fun house (The Stooges – 1970)

Fun House

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