Oliver Twist (2005)

O pequeno órfão nas mãos do temível Fagin, Ben Kingsley irreconhecível

O pequeno órfão nas mãos do temível Fagin, Ben Kingsley irreconhecível

Não sei por que mais sempre relutei em assistir Oliver Twist de Roman Polanski. O motivo eu não sei dizer direito, talvez porque eu achasse a trama de Charles Dickens, escrita em 1833, demasiada bobinha para um cineasta da envergadura e ousadia do diretor franco-polonês. Mas quem disse que as obras do escritor inglês do século 19 são superficiais? E olha que eu nem li nada do cara, hein! Espero que agora eu tome vergonha e leia alguma coisa do escritor que era conhecido pelo maniqueísmo conflitante. Há pelos menos duas leituras obrigatórias: David Cooperfield e Oliver Twist.

Depois de ganhar o Oscar pelo pungente drama O pianista, Roman Polanski, então setentão, pensou seriamente em aposentar as chuteiras. Mas o que fazer já que, desde 1961 – passando por óperas e projetos teatrais -, ele só sabia ganhar dinheiro e se satisfazer atrás das câmaras? A motivação para seguir em frente foi os dois filhos. “Eu queria algo a que eles pudessem assistir, por isso comecei a procurar assuntos que fossem adequados”, lembraria anos depois.

Foi a bela mulher Emmanuelle Seigner que, sabendo do apego do diretor pela versão cinematográfica clássica do livro de 1948 de David Lean, quem sugeriu Oliver Twist. “O que Roman me disse foi que ele queria fazer um filme para as crianças – suas crianças”, contaria o roteirista Ronald Harwood. Assim, com o maior orçamento de sua carreira ele começou a trabalhar com a equipe na recriação da Londres vitoriana de Dickens em Praga.

Bom, como eu disse logo acima, nunca li um romance do escritor inglês, mas com certeza passei os olhos Oliver Twist 4em obras de outros autores da época, além de ter assistido uma bagatela de filmes ambientados nesse período. De modo que tenho certeza que a fotografia sombria, suja e pesada dessa adaptação é totalmente condizente com o clima soturno do livro adaptado.

Além dos dois filhos de Polanski no elenco, me chamou atenção as interpretações profissionais da gangue de trombadinhas e claro, Sir Ben Kingsley (Gandhi) na pele do imundo e amoral, Fagin, numa caracterização que, de tão grotesca, o faz irreconhecível. “Mas que pena, com este rosto poderia roubar velhinhas na porta da Igreja”, debocha, adoravelmente malévolo, antes de colocar suas garras em cima da pobre vítima.

Na trama ele é o vilão que chefia um grupo de meninos que têm como tarefa assaltar homens de posses pelas ruas de Londres. Todo dia é uma aventura pela grande metrópole e a noite o bando de anjos punguistas volta para casa com os bolsos cheios de carteiras, relógios e lenços chiques.

Após passar horrores num orfanato e nas mãos de um coveiro do mal, enfim Oliver Twist (Barney Clark) consegue fugir do campo e seguir para a cidade grande. Lá é descoberto pelo líder do grupo de punguistas que o introduz no mundo do crime, mas logo o jovem cai nas graças de bondoso Sr. Brownlon. Nota-se na brutal semelhança do protagonista com Roman Polanski.

Totalmente um filme convencional para os padrões de Roman Polanski, Oliver Twist Tem toda pinta de especial para televisão de fim de ano. Mas é uma produção esmerada em todos os aspectos técnicos, fazendo saltar aos olhos o famoso perfeccionismo do diretor. O perfeccionismo de um cineasta genial.

* Este texto foi escrito ao som de: The Village Green Preservation Society (The Kinks – 1968)
The Kinks

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