Jukebox Sentimental – Baba O’Riley

A banda The Who em cena. Desafio alguém apontar um grupo tão explosivo no palco quanto eles

A banda The Who em cena. Desafio alguém apontar um grupo tão explosivo no palco quanto eles

Algumas canções têm o poder de levantar nossa moral quando estamos por baixo e sem ímpeto para seguir em frente. São sons de guerra capazes de nos fazer vencer barreiras ou até mesmo enfrentar o maior de todos os obstáculos, quem sabe até passar por cima do vil inimigo como um Panzer. Inclusive se o inimigo for abstrato e traiçoeiro como os ossos chacoalhantes da morte. A morte, essa quimera indecente e inevitável, já dizia o grande cineasta Glauber Rocha.

Uma dessas faixas que me deixam com vontade de empunhar minha espada imaginária e sair por aí cortando cabeças a torto e direito é o pop rock britpop, Bittersweet Symphony, dos meninos do Verve. A outra é o hino hard rock dos anos 70, Baba O’ Riley, de autoria de Pete Townshend, guitarrista de uma das bandas mais formidáveis do rock britânico, o The Who.

Exalando fúria com as estocadas explosivas de Keith Moon na batera, a música parece ter sido escrita para embalar hordas selvagens de hooligans em estádios. “Aqui fora nos campos/Eu luto pelas minhas refeições/Eu tenho minhas responsabilidades no meu modo de viver”, abre a faixa Roger Daltrey, com voz poderosa de um general, parecendo comandar um exército num campo de batalhas. “Eu não preciso lutar/Para provar que estou certo/Eu não preciso ser perdoado”, arremata o vocalista, potencializando a famosa arrogância britânica com frases diretas.

The Who flagFaixa de abertura de Who’s next, disco de 1971 que até hoje é o álbum da banda que mais vende, o título é a fusão de duas obsessões de Townshend na época: o guru indiano Meher Baba e o músico vanguardista californiano Terry Riley. A canção fazia parte de um projeto ambicioso do guitarrista chamado Lifehouse que tinha um pé no misticismo oriental e outro na ficção científica, daí a referência ao marco do gênero 2001: Uma odisséia no espaço.

Como Pete Townshend era o único cara que parecia compreender a empreitada, ele se recolheu humilhado em sua humilde condição de pop star fracassado e debulhou suas composições intensas nessa pérola setentista. O que impressiona é o sincretismo entre o arcaico e o moderno na mistura inusitada e impactante de guitarras e sintetizadores.

“Não chore/Não levante os olhos/É só a devastação adolescente”, diz o trecho mais pungente da música, que remete à desilusão com sua própria geração.

A força da faixa é impactante, sobretudo ao vivo. Gosto muito também de Love ain’t for keeping, mas Baba O’ Riley é massacrante. Outro dia mesmo ouvi uma versão do Pearl Jam num ginásio e me arrepiei todo quando o público cantou em uma só voz o trecho acima. Confesso que não consegui conter as lágrimas. Noutra apresentação dos anos 70, um empolgado Pete Townshend esmurra com violência um pandeiro e ataca sua les Paul com violência juvenil, enquanto que Roger Daltrey gira o microfone com a habilidade de um entertairment, trotando diante da plateia como um soberbo líder militar.

“Apague o fogo/E não olhe sobre o meu ombro/O êxodo está aqui”, diz outro trecho arrepiante, para mostrar quem está no comando.

No show do pós 11 de setembro Pete Townshend e cia desenterraram três faixas de Who’s next, inclusive Baba O’ Riley, e eles foram a grande atração do evento, ovacionado ensandecidamente pelos presentes. Se alguém aí encontra outra banda dos anos 60 e 70 que tenha presença de palco mais imponente do que o The Who, me avise.
* Este texto foi escrito ao som de: Who’s Next (The Who – 1971)
Who's next

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