Água Viva (1980)

A "megera" Beatriz Segall com o filho vivido pelo galã Fábio Jr., em trama de Gilberto Braga

Beatriz Segall e Fábio Jr., mãe e filho em trama de Gilberto Braga dos naos 80

Um colega certa vez me disse que eu sou nostálgico de um tempo que não vivi. Gostei muito disso porque o cara acertou na mosca. Realmente gosto de coisas que não foram da minha época, que não fizeram parte do meu cotidiano, da minha trajetória. Como isso pode acontecer não sei explicar, mas como falou aquele personagem do Ariano Suassuna, “só sei que é assim”.

Talvez seja por tudo isso que eu estou me amarrando na reprise da novela Água viva de 1980, exibida pelo Canal Viva. Quando a telenovela de Gilberto Braga estreou, eu ainda tinha quatro anos e mascava chupeta, ou seja, nem sabia andar e falar direito. Ainda acho que não sei falar direito até hoje, mas enfim. De qualquer forma, admiro a importância da celebração à memória em todos os seus meandros, embora o Mário Lago tenha dito certa vez que ser saudosista é cuspir quadrado, daí a importância do Canal Viva. Ah, sim, e para aqueles que não sabem, me esqueci de dizer, sou sim, noveleiro até os ossos, mas não tenho muita paciência para ver as novelas de hoje não. Daí esse olhar mais cuidadoso com os clássicos do gênero do passado.

Com 159 capítulos, esse grande sucesso da Rede Globo exibido no horário nobre da emissora carioca, surgiu para ser uma inovação em termo de comportamento com a chegada da nova década de 80. Por isso os diálogos cheios de gírias, modernos, jovens e descolados, sacados da trama que contou com a colaboração de Manoel Carlos. E não só isso, alguns tabus foram quebrados em cena, em face à opressora ditadura do passado como a ousada sequência em que o ator Fernando Eiras, um riponga artista, enrola um baseado.

Água Viva!Como todo produto sensorial, a novela vem encapsulada de uma série de informações sentimentais, uma delas a formidável trilha sonora nacional que conta com pérolas como Grito de alerta, um dos maiores sucessos na carreira de Maria Bethânia, a baladona, Amor, meu grande amor, de Ângela Rô, rô, Menino do rio, tema da novela escrito por Caetano Veloso e interpretada por Baby Consuelo e claro, 20 poucos anos, de Fábio Jr., um grande sucesso das rádios da época.

A novela marcou a estreia do sempre elegante e charmoso Raul Cortéz na Globo, mas para mim o gostoso e inebriante é ver o cantor e galã Fábio Jr., no início da carreira, lindo e jovial, com seus 20 poucos anos na pele do médico Marcos Mesquita. E olha que ele fazia parte do núcleo secundário, já que Reginaldo Faria era a grande estrela da trama vivendo o descontrolado Nelson, um sujeito apaixonado em pesca em alto-mar que está passando por um momento difícil do ponto de vista financeiro e sentimental. Ele está apaixonado pela deslumbrante Lígia, Betty Faria, aqui uma mulher interesseira, mas batalhadora que quer subir na vida por méritos próprios.

“Das duas umas: ou eu estou indo embora ou treinando andar de costas”, diz o seu galante personagem, totalmente desconfortável numa festa de bacana, ao ver o grande amor de sua vida.

Ao colocar em evidência a elite carioca à beira-mar, a novela charmosa que explorou a prática de esportes marinhos – entre eles o Wind surf, até então uma novidade -, abordou temas contundentes para a época como a adoção, daí o mérito da dramaturgia de Gilberto Braga, um expect em registrar a condição humana no que ela tem de mais asquerosa e humanista.

Por isso o contraponto maniqueísta sim, mas um maniqueísmo inteligente que dialoga com a vida real, como mostram, por exemplo, os personagens de Lourdes Mesquita (Beatriz Segall, bem antes da malévola, Odete Roitman) e Edir (Cláudio Cavalcanti), um professor de história sensível à causa do próximo.

Bom, se você não tem espelho em casa ou sofre de autismo, que tal refletir sobre a mediocridade humana que nos cerca revendo a novela Água viva da Rede Globo.

* Este texto foi escrito ao som de: Fábio Jr. (1979)

Fábio Jr. 2

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