A simplicidade de Vinícius de Moraes

O poetinha ao lado do então líder operário Lula, deixando claro suas convicções sociais

O poetinha ao lado do então líder operário Lula, deixando claro suas convicções sociais

O rabugento e genial poeta João Cabral de Melo Neto não gostava de música. Na verdade ele odiava música e como isso era possível só o imponderável poderia explicar. Talvez por isso mesmo que o autor de Morte e Vida Severina certa vez teria dito que se Vinícius de Moraes não tivesse “a mania de se envolver nessas coisas de música”, talvez hoje ele fosse um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos.

Pode até ser, mas se nos anos 50 Vinícius de Moraes não tivesse se encontrado com Tom Jobim e escrito as canções da peça Orfeu da Conceição, selando o início de uma das parcerias musicais mais festejadas da MPB, eu e milhares de pessoas da minha geração não teriam escutado o mágico disco, A arca de Noé. Sim, porque foi assim que o poetinha entrou pela primeira vez em minha vida e na de milhares de crianças hoje na faixa dos quase quarenta anos, ou seja, por meio de canções como O pato, O relógio, As abelhas e A casa. “Era uma casa/Muito engraçada/Não tinha teto/Não tinha nada”, são versos que não saem da minha cabeça até hoje.

Daí o fato de, no centenário de nascimento do artista, suas filhas serem convidadas para dar palestras nos lugares mais díspares, das mais conceituadas faculdades a escolas de ensino fundamental e maternal. Um detalhe que enfatiza a capilaridade do homem que se dizia “o branco mais preto do Brasil” e tinha como característica uma simplicidade colossal.

O porteiro Sebastião era testemunha desse lado simples do poeta, que o convidava todas as manhãs para um café no bar da esquina da rua em que morava, na Gávea. “Você podia ser quem for com ele não tinha esse negócio de ser bacana, não. Ele chamava todo mundo para sentar na mesa dele”, lembra. “O Vinícius nunca deixava de atender as pessoas”, conta a irmão Laetitia, A arca de Noéem um especial da Globo News exibido outro dia.

Para o escritor e biógrafo José Castello, Vinícius tinha um jeito de ser tão transgressor que não cabia em nenhuma das regras ou protocolos do mundo. Um episódio marcante que ilustra essa natureza anárquica bem ao seu jeito foi o dia em que, bastante emocionado com um show realizado em Lisboa, ele pagou a conta de todas as pessoas do restaurante em que fora jantar, tamanha a euforia que se encontrava. “Irresponsável nunca. Desprendido, sim”, confirma o amigo e parceiro Carlos Lyra.

Talvez por ser assim tão desapegado às coisas materiais que o autor de poesias sociais marcantes como A rosa de Hiroshima e O operário em construção sempre saiu dos vários casamentos que desfez apenas com uma escova no bolso e o retrato que o pintor Cândido Portinari lhe deu de presente. “Quando o conheci ele devia cinco conto de réis ao Tom Jobim e morava de favor na cada do Cécil Thiré (filho da atriz Tônia Carreiro)”, revela o eterno parceiro Toquinho.

Gosto da história em que ele, ao descobrir que tinha dado dinheiro por engano a um jovem poeta admirador – pensando ser um de seus credores -, tomou-lhe o saco de dinheiro com a seguinte frase que era mais uma carapuça a si mesmo: “Me dá isso daqui porque dinheiro na mão de artista é um perigo”, disse.

Era por essas e outras que o grande poeta Carlos Drummond de Andrade, quem sabia das coisas, teria dito que Vinícius de Moraes viveu realmente como um poeta, se embriagando de álcool e de vida.

* Este texto foi escrito ao som de: Vinícius & Toquinho (1974)

Vinícius e Toquinho

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